segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um Portugal Monocromático em processo?


Há poucos dias a candidatura do Fado foi eleita como património da Unesco.

Até aí tudo bem não fosse uma pequena situação, na origem da candidatura, que eu já tinha mencionado AQUI.

Porém, admitindo que foi pouco ético o comportamento das autoridades Portuguesas, também sou capaz de admitir que, obviamente, o Fado merece mais essa menção do que uma festividade que pouco extravasa os limites do concelho / região.


Apesar da contínua tentativa de fazer o Fado passar por estilo musical de referência Nacional, tinha andado a encarar esta situação com graça e a divertir-me explicando, a quem quisesse ouvir, que o Fado é a voz de Lisboa e não diz respeito a mais ninguém. Nem a Coimbra que o desenvolveu através de estudantes Lisboetas! Obviamente, isso não faz com que seja mais ou menos (até porque o é sem dúvidas) digno do estatuto em que foi colocado oficialmente.


Como Português já estou, no entanto, mais do que acostumado às tentativas de imposições culturais ridículas. Imaginem a parvoíce que seria fazer dos Gaiteiros Galegos (de cultura Atlântica) a imagem de Espanha (de Cultura mista). Pois bem, é o que estão a fazer em Portugal. Impor a imagem da cultura de uma cidade ao resto do país.

A minha paciência esgotou-se porém quando vi esta reportagem:

http://sicnoticias.sapo.pt/cultura/article1039534.ece

"Um dia depois do Fado ter sido considerado Património Imaterial da Humanidade, já se fala de outras possíveis inscrições portuguesas. É o caso do canto alentejano ou da dieta mediterrânica."

A minha frustração advém da antecipação que a minha cabeça já está a fazer. Dentro em breve teremos mais duas fontes de propaganda nacional a dar uma imagem falsa de Portugal. Isso porque duvido que os responsáveis pelas hipotéticas candidaturas se preocupem com a falsidade da dieta mediterrânica em grande parte do território nacional.


Alguns exemplos:

- O Azeite é uma importação em grande parte do país. Veio substituir a gordura de origem ANIMAL (coisa completamente adversa à gastronomia mediterrânica) que era uma característica Atlântica. De facto, com a chegada do Milho Sul Americano e a consequente ocupação das pastagens nos vales (outrora dedicados à criação de gado) para seu crescimento, as populações compensaram o decréscimo de um recurso com o outro.

- A carne vermelha é uma presença indissociável nas terras a Norte do país. Até em trás-os-montes, onde o Azeite teve uma presença mais antiga, esta era uma fonte de carne primordial. As aves e outras carnes eram secundárias. Apenas o porco o superava.

- O próprio vinho. no Minho e Douro Litoral, é completamente diferente do das zonas mediterrânicas. Tão diferente que é único no mundo. Originalmente, a Cidra seria a bebida alcoólica local.

- O consumo de peixe e mariscos, típicos da cultura mediterrânica não se enquadra, até há pouco tempo, em vastíssimas regiões do país. Foi na Grécia que nasce a designação "alimentação mediterrânica". Aí sim! Muita da população teria acesso a esses produtos. Especialmente as que viviam nas centenas de ilhas e ilhéus pertença deste país. Em Portugal, a carne estaria dominante em todo o lado a não ser nas zonas puramente litorais.

Campo-Prado Minhoto usado para cereal no verão e fonte de alimento para gado bovino no inverno - Realidade tipicamente Atlântica.

Portanto, e poderia alongar-me, alguns dos requisitos para a designação de "alimentação mediterrânica", simplesmente não existem ou, por outro lado, são importações mais ou menos recentes. Se isso contasse para definir um país como tendo esta dieta então, hoje, todo o mundo ocidental poderia aderir à candidatura.


Agora, acerca do "canto alentejano", acho essa hipótese francamente ridícula. Mais uma vertente cultural de cariz totalmente mediterrânico está a ser hasteada em nome de Portugal. Porém, esse, ao contrário do fado, tem uma importância e expressão nacional que, simplesmente, não merece uma referência da UNESCO. Pelo menos, à frente de outras formas de expressões nacionais com mais peso...

Existem de facto outras formas de expressões musicais com dimensão humana actualmente superiores ou, antropológicamente-etnograficamente mais interessantes (concordo com o possível debate que essa afirnação merece) mas que, talvez por não ter afinidade com Lisboa, os nossos governantes não conheçam.

Falo por exemplo de:

Cantadeiras do Vale do Neiva - Uma referência nesta arte
- Cantos Polifónicos.

Quase sem paralelo no mundo, atraiu Michel Giacometti que ficou fascinado. É o resultado de uma vivência comunitária ancestral. O canto polifónico, maioritariamente feminino, é um museu de antropologia por si só. Religiosos, de trabalho ou lúdicos. Contavam histórias de amores, marcavam ritmos ou, até, lendas antigas (à moda dos contos cantados Transmontanos, também eles dignos de referência).


- Cantares ao Desafio.

Já anteriormente falei deles. Ver AQUI.

De origem medieval, os trovadores rivalizavam entre eles com versos poéticos sobre assuntos de todo o tipo. Hoje em dia, a versão mais popular deste antigo hábito, pode ser apreciada em todo o local no mundo onde hajam pelo menos meia dúzia de Portugueses. De origem Nortenha, esta tradição (ou melhor, uma das determinadas formas de exprimir esta tradição presente em quase todo o território) foi exportada para todos os continentes e tem uma massa humana de interpretes e amantes que o Canto Alentejano nunca teve nem nunca terá.

Não me interpretem mal. A comida mediterrânica é boa. Os Cantares Alentejanos tem a sua piada. Contudo, a primeira não representa Portugal e, a segunda, não tem importância nem dimensão humana que chegue para o justificar.

Em todos esses casos Lisboa aposta em emblemas que lhes são familiares e tenta impô-los a todos os Portugueses. Portugal será sempre visto como um país mediterrânico apesar de não o ser. Se algumas regiões tem fortes afinidades e possam ser confundidas, outras são o completo oposto.

Serra do Gerês - Hoje em dia um dos locais que ainda exibe de forma evidente uma cultura regional que nada tem de "mediterrânico".

Eu, no que me toca, defenderei sempre a minha realidade não deixando que as imagens que certos inventam e usam em seu favor se sobreponham às que me são queridas.Link

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

"Famalicão" (1940) - Manoel de Oliveira

Mini Filme - Documentário de Manoel de Oliveira interessantíssimo em vários aspectos.

Retrata uma sociedade em fase de desenvolvimento pré-industrial. O momento onde o mundo rural começa a fundir-se com a modernidade.

Impressiona ver Famalicão, uma região hoje densamente povoada e fortemente marcada pelo caos urbanístico, aparecer ainda com um ambiente natural / paisagístico que, hoje, só é possível encontrar no Parque Nacional e terras à volta.

De referir que apenas 70 anos, menos do que a vida média de uma pessoa, passaram entre o paraíso Natural de uma terra com todos os recursos e potenciais possíveis de imaginar, e uma actualidade onde já nada poderá reverter a destruição Natural, Patrimonial e Social.

Qual será o nosso futuro e o futuro das nossas terras tendo em conta o rumo actual da civilização?

domingo, 18 de setembro de 2011

Pitões das Júnias - Encontro de um povo

Enquanto as autoridades falam e conversam sobre meios de promover as relações inter fronteiriças, através de complexas e inconsequentes medidas políticas, o povo, esse, demonstra que, com uma mero convívio, se alcança mais do que em meses fechados em escritórios.

Esse convívio das gentes das icónicas terras de Pitões demonstra, numa micro dimensão, que é bem simples juntar um povo que, no fundo, sempre foi o mesmo.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Visita de mês de Agosto: Senhora da Graça - Mondim de Basto

Mês de Agosto é mês de férias (menos para mim). Aproveitem o dia e façam uma visita a um dos mais belos locais da Gallaecia Bracarense!

sábado, 23 de julho de 2011

Galiza obtém reconhecimento oficial como território lusófono por parte da CPLP

O trabalho da Academia Galega da Língua Portuguesa obteve ontem o seu mais importante fruto até hoje, ao ser reconhecida como “Observadora Consultiva”, por proposta do governo do país que exerce a presidência da CPLP, neste caso o da República de Angola.

Todos os estados membros da CPLP apoiaram unanimemente a proposta angolana, que converte a AGLP a primeira entidade que, sem pertencer a um Estado membro, goza da condição de “Observadora Consultiva”. A Galiza é, aliás, a única nação lusófona que não integra a CPLP como membro de pleno direito devido a que carece de Estado próprio e que Espanha e as instituições autonómicas têm até hoje desprezado qualquer acordo com o âmbito de povos que no mundo se expressam na nossa língua.

Um passo em frente de importância histórica

O acontecimento de que informamos tem importância histórica por vários motivos: para já, afirma implicitamente a existência diferenciada da Galiza como nação sem estado que, apesar de estar submetida à soberania espanhola, faz parte de facto do espaço internacional dos países lusófonos, um dos maiores em termos de número de falantes no mundo.

Além do anterior, o reconhecimento atingido por uma entidade não governamental como é a AGLP deixa em evidência o abandono oficial que sofre o mais importante ingrediente identitário galego: a nossa língua, cuja política está em mãos de instituições inimigas da mesma ou, no melhor dos casos, irresponsáveis que até hoje têm desistido de dar ao nosso povo o papel que lhe corresponde como berço histórico do espaço internacional lusófono.

Enquanto a Real Academia Galega, ligada à oficilidade espanhola, leva décadas sustentando a visão isolacionista que do nosso idioma interessa dar ao Estado espanhol, a Academiga Galega da Língua Portuguesa, sem quase apoios institucionais, conseguiu em poucos anos que a CPLP afirme a legitimidade dos princípios reintegracionistas: os princípios da verdadeira soberania linguística galega.

Por último, e indo para além da significação linguística e identitária, este gesto vem demonstrar que é possível atingir conquistas sem contar com o apoio das instituições, agindo de maneira autónoma, como povo sujeito de direitos e sem complexos.

A decisão do Conselho de Ministros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, reunido no seu XVIII plenário em Luanda, reconheceu a existência da Galiza como território lusófono, termo internacionalmente aceite na atualidade para se referir ao que, em termos de genealogia histórico-linguística, deveria denominar-se “galegofonia”

Seja como for, do Diário Liberdade só nos resta enviar os nossos parabéns à Associação Galega da Língua Portuguesa e às entidades que nos últimos meses têm sustentado de maneira discreta, segundo agora comprovamos, efetiva, uma iniciativa importante para afirmar a nossa identidade linguística, que nos situa como nação soberana no quadro internacional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Sendo essa também a causa que move dia a dia o labor deste humilde espaço informativo, findamos estas linhas com uma saudação aos nossos leitores e leitoras da Galiza.

Parabéns ao Povo Galego!

Fonte: http://paranablogs.wordpress.com/2011/07/22/galiza-obtem-reconhecimento-oficial-como-territorio-lusofono-por-parte-da-cplp/#comment-264

Mais informações AQUI!

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Agora, digo eu, só falta a erradicação do termo Lusofonia e a utilização da palavra correcta: GALAICOFONIA.

Isso, porém, será um sonho que, muito provavelmente, nunca virá a ser realizado.

sábado, 9 de julho de 2011