segunda-feira, 30 de junho de 2008

O Garrano Galaico!


O Cavalo Garrano é uma raça nativa do Norte de Portugal, sobrevivendo entre os concelhos do Minho e Trás-os-Montes. Devido á sua estatura peculiar, este mais parece um poney.

Tem a sua origem no cavalo ibérico pré-histórico visto que, pinturas rupestres do Paleolítico (de La Pasiega e Altamira) descrevem a morfologia daquele que é considerado o ancestral cavalo Garrano.

Com a excepção dos cavalos trazidos pelos celtas, considera-se que os garranos não sofreram muitos cruzamentos com outras raças.

"O cavalo garrano foi domesticado há vários séculos e estava perfeitamente integrado na vida rural do sistema agrícola de minifúndio no noroeste português. A mecanização da agricultura provocou o desinteresse dos criadores e o retorno dos animais para as zonas de montanha em regime livre."

Ora o facto de andarem livremente pelas montanhas acarretou consequências graves.

Por um lado eram considerados pelos proprietários dos terrenos uma ameaça aos pastos, por outro lado tornaram-se uma presa fácil para os lobos e por último estavam mais expostos a cruzamentos indesejados com outras raças.

Juntando a isto, o factor de isolamento em cadeias montanhosas, começou-se a verificar uma baixa taxa de natalidade e consequentemente uma diminuição da capacidade de sobrevivência da espécie.

A criação do Parque Nacional Peneda Geres veio assegurar a sua protecção e sobrevivência, sendo este um dos poucos locais onde se pode observar alguns exemplares em manada.

De acordo com o Registo Zootécnico da raça iniciada em 1994, em Portugal existirão cerca de duas mil cabeças - 1500 adultos e 500 poldros, e devido a tão poucos exemplares, a raça está classificada como ameaçada pela união europeia.

terça-feira, 24 de junho de 2008

O São João de Braga

A festa de São João é a rainha das festas populares. Não há maior demonstração de alegria espontânea no povo do que neste dia.

Entre o som dos martelos, o cheiro dos alhos, sardinhas e manjericos, a massa colorida de pessoas e a boa disposição, sente-se que numa era de esquecimento e negação da nossa cultura, os santos populares são o ultimo bastião tradicional que consegue ser aceite por idosos, adultos e jovens.

Toda a sociedade se une à volta desta festa.

O São João festeja-se há cerca de 500 anos. Melhor dizendo, a 24 de Junho (aproximadamente) sempre se festejou mas por motivos um pouco diferentes. De facto, tive a oportunidade de referir num post anterior que os Santos populares festejam-se numa época muito especial do nosso calendário.

As culturas europeias e de um pouco todo o mundo contavam o dia de 21 de Junho como o 1º dia do ano. Este era o dia mais longo, o solstício de verão! Marcava a viragem no calendário e simbolizava o renascimento da natureza, a fertilidade patente da época e a união entre o homem e o mundo. O solstício era a celebração mais importante do nosso povo até a nossa cultura original ter sido corrompida por um cristianismo medieval sem escrúpulos e cheio de defeitos.

No paganismo, não haviam defeitos nem se mentia. No paganismo, a natureza é quem manda e, idolatrando-a, preservando-a e respeitando-a, mantinha-se um equilíbrio entre os homens e tudo o que o rodeava. Hoje.... bem, hoje... sabemos perfeitamente o estado das coisas.

Muitos dos hábitos populares de hoje são ainda reflexos de costumes pagãos mais do que ancestrais. As fogueiras por ex. São um elemento presente nas celebrações dos solstícios como forma de representar a purificação e transição traçando um paralelo com o que se estava a passar no calendário. Hoje, no Porto e em Braga ainda se podem ver os balões que levam a chama aos céus e, nas aldeias, os adros das igrejas e casas familiares ainda fazem a tradicional fogueira de São João.

De referir ainda a lamentável e ridícula mentira que a igreja católica criou para justificar as fogueiras. Segundo estes castradores culturais, o antigo costume de acender fogueiras no começo do verão europeu tinha suas raízes em um acordo feito pelas primas Maria e Isabel. Para avisar Maria sobre o nascimento de São João Baptista e assim ter seu auxílio após o parto, Isabel teria de acender uma fogueira sobre um monte.

Do mesmo jeito, estas manipulações serviram para associar os cultos pagãos ancestrais a lendas bíblicas inventadas à pressa. Assim, apareceram os Santos Populares todos muito próximos da data do Solstício, este sim a verdadeira razão das celebrações: Santo António 13 de Junho, São João 24 de Junho, São Pedro (29 de Junho).

Outro exemplo dos hábitos pagãos são as célebres partidas de São João onde as populações (normalmente mais jovens) "roubam" tudo o que encontram rivalizando entre eles tentando fazer o maior disparate. Muitos vêem neste hábito uma réstia dos rituais de passagem pré-católicos. Neste tempo, sem dúvida que feitos realmente mais valentes do que roubar vasos ou o atar o sino da igreja ao pescoço de uma vaca para que esta acorde a população a meio da noite, eram exigidos aos recém intitulados como Homens.

Hoje, a maioria das pessoas perpetuam mais ou menos inconscientemente estas antiquíssimas tradições. Bem que muito alteradas e impregnadas de influência católica, os santos populares e, mais especificamente o São João tem um valor inigualável. Representa a nossa ligação com um passado distante. Hoje festejamos-lo de uma forma diferente mas mesmo assim demonstra quem somos, de onde viemos e para onde vamos!

"São João era bom Santo
Se não fosse tão velhaco.
Foi com as moças à fonte
Levou três e trouxe quatro.

São João adormeceu
Nas escadinhas do coro,
Deram as freiras com ele
Depenicaram-no todo.

E repenica, e repenica
É São João a suar em bica.
E repapoila e repapoila
Feijão branco arroz na caçoila.”

Plantas Silvestre Galaicas

Vamos aqui falar de etnobotânica como sendo a ciência que estuda os conhecimentos e saberes tradicionais do uso e propriedades das plantas silvestres.

Este património, transmitido de geração em geração, está em risco de desaparecer devido ao abandono da vida rural e à maior facilidade de recorrer à medicina convencional.

Desde os tempos mais remotos se utilizou em terras galaicas as plantas silvestes, para diversos fins, como alimentação, condimento, uso doméstico, construções, vestuário, adorno, combustível e, muito destacadamente, para a elaboração de mezinhas caseiras e práticas mágico-religiosas.

As mezinhas podem ser sobre forma de chá, infusão, gargarejos, ingestão, inalação, licor e banhos.

Alecrim
"Alecrim, alecrim doirado que nasce no monte sem ser semeado" já é canção popular.

Populares são também as suas propriedades curativas sobre o sistema nervoso, funcionando como calmante, fortalecendo a memória e elevando a moral dos deprimidos.

Ideal para dores de estômago, enxaquecas, rugas, feridas, queda de cabelo e o “mau olhado”.

Carqueja

A carqueja é uma planta comum no norte de Portugal cujas flores são muito apreciadas na preparação de infusões e na culinária; por exemplo o arroz de carqueja.

É uma planta que nasce em montes e serras áridas. Quando seca, é usada pelas populações por exemplo para acender o lume, fazer vassoiras, limpar chaminés e esfregar o pote da cozinha e tirar a felugem das chaminés.

É indicada para a hipertensão, circulação sanguínea, diabetes, digestão, constipação, bronquite, rins, fígado, bexiga e para fins dietéticos.

Cidreira

De folhas aveludadas, é uma planta que tem a particularidade de atrair as abelhas. Por essa razão, deve-se esfregar as colmeias com erva-cidreira para as abelhas não fugirem.

É indicada para digestões difíceis, cólicas, flatulência, e ideal para utilizar como calmante e combater as insónias.


Fel da terra

Como o próprio nome indica, é uma planta muito amarga. É também conhecida como planta da febre.

É muito útil para a hipatite, anemia, anorexia, falta de apetite, febres, fígado, feridas e úlceras.

Freixo

O freixo é uma das mais importantes árvores galaicas e também das mais raras.

Pode atingir uns 40 metros de altura e os 300 anos de vida se o terreno for bastante irrigado como as margens dos ribeiros, nascentes, lameiros ou rios.

Na zona Minho, este tipo de folhosa sofreu muita procura por parte da população em geral e os artesãos em particular.

Pela sua consistência e dureza, a madeira de freixo era ideal para fabricar diversos utensílios utilizados na lavoura como os “jugos das vacas”, escadas e cabos para as ferramentas.

A sua folha é indicada para o colesterol, ácido úrico, má circulação e reumatismo.

Giesta branca

É uma planta adaptada a solos pobres e exposto a ventos rigorosos. Só existe na zona Norte de Portugal e Galiza, podemos considerar uma planta verdadeiramente Galaica!

Como é lanhosa, é também muito utilizada para fazer fogueiras. Em determinadas zonas podem atingir mais de 5 metros de altura.

Dela também se fazem vassoiras e se utilizava para fazer os telhados das habitações e cortes dos animais.

Ideal para prevenir problemas cardíacos, ureia, diabetes e infecções de bexiga.

Gilbarbeira

Planta silvestre muito usual entre os carvalhais galaicos.

Devido às suas bolinhas avermelhadas, esta planta é em muito idêntica ao azevinho.

Quando seca fazem-se vassoiras para limpar a felugem (carvão) das chaminés do telhado e do forno de cozer o pão.

As folhas são indicada para cansaço, emagrecimento, celulite, gota, hemorróidas, insuficiência venosa e renal.


Macela

Muito comum nos campos minhotos. O seu florir salpica os verdes campos de amarelo e branco em cenários sem fim.

É muito usada na lavagem de feridas e perturbações gastrointestinais.

Malvas

A conhecida água de malvas ou “água de cu lavado” era o tratamento utilizado pelas mulheres para fazer a sua higiene pessoal. Devido às suas propriedades, é muito utilizada para irrigações vaginais.

Já sendo ditado popular, quando um moço está apaixonado, diz-se que a amada já lhe “deu a beber água das malvas”. Quando alguém está a ser muito chato e inconsequente diz-se “que vá às malvas”, isto é “que se vá curar”.

Ideal para as dores de dentes, bexiga, infecções, inflamações dos olhos, tosse, bronquite, e varicela.


Sabugueiro

É uma planta comum entre os campos galaicos. Depois de se tirar o miolo, o seu caule fica oco, e as crianças utilizavam-no para fazer os chamados “tiretes”.

Uma espécie de pistola que arremessava, com ajuda de um pau fininho, as bagas dos loureiros, depois de entalados no pau de sabugueiro.

A folha de sabugueiro é ideal para gripes, constipações, resfriados e para combater o desconforto das ressacas.

O suco das bagas é um óptimo remédio para as enxaquecas e o nervosismo.

São Roberto

Já na Idade Média, e provavelmente anterior a esta época, esta planta era associada a problemas de sangue.

Foi utilizada em rituais de magia, em curas de hemorragias, fígado, cicatrizar feridas, diarreia e problemas gastrointestinais.

É muito útil no tratamento de úlceras de estômago e intestino, hemorróidas, inflamação da boca e sangramento de gengivas, menstruações abundantes, dores de garganta, limpeza da pele e cicatrização de feridas.

Sete sangrias

Também conhecida por sargacinho, é uma planta que se encontra facilmente entre os pinheiros.

De um azul inconfundível, é indicada para o catarro, constipações, hematomas, bexiga e retenção de urina.

Urtiga

É uma planta que ao ser tocada irrita a pele com pequenas borbulhas e provoca ardência e coceira.

Se queremos colher urtigas à mão, existe uma táctica milagrosa, basta suster a respiração.

Para estancar o sangramento do nariz, utiliza-se um pouco de algodão embebedo em suco de urtiga.

Indicado para anemia, asma, infecções, hemorragias internas, circulação, irritação da pele, queimaduras, gota e úlcera.

Urze

Planta que se multiplica facilmente nos montes mais áridos. Serve de repasto para cabras e ovelhas e quando floresce é muito procurada pelas abelhas.

Como é muito lanhosa e ramificada é uma planta usada para fazer fisgas, e das suas raízes fazem-se magníficos cachimbos.

É utilizada para as insónias, artrite, reumatismo, rins e bexiga.


sábado, 21 de junho de 2008

O maior dia do ano!


O solstício está a chegar.

Esta época é estranha. As pessoas andam mais felizes na rua. Andam mais e melhor. Os cheiros da primavera madura a dar o seu lugar ao verão são ainda inebriantes nas terras dos nossos dias.

Imagino a intensidade dos perfumes da terra há décadas atrás. Quando haviam flores aos molhes nos valados. Quando cresciam ervas aromáticas nas frinchas das paredes graníticas! E quando as culturas da erva, centeio, milho populavam todos os centímetros dos silenciosos vales misturando-se com os bravos aromas dos pinheiros, carvalhos, oliveiras e arvores de fruto das zonas mais altas...

Quando a água corria pelos regos e riachos verdejantes, alimentando toda a região nestes primeiros dias de calor em que a terra finalmente largava a sua essência, as gentes preparavam a celebração do mais importante dia do ano.

O SOLSTÍCIO DE VERÃO.

Este dia, o maior dia do ano, marcava as populações pré cristãs de uma tal forma que todo o seu calendário era regido por ele. O ciclo da vida começava e acabava nos solstícios de verão e Inverno.

Marcava o inicio e o fim de um ciclo. O princípio e o término das 2 estações.

Aí se realizavam os rituais de transição de meninos para guerreiros e de meninas para sacerdotisas. Aliás, é de estranhar que os maiores santos populares se realizem muito perto do Solsticio de verão... Santo António, João e Pedro não seriam mais uma adaptação religiosa do catolicismo aos eventos pagãos das antigas sociedades?

Quem sabe... Já ninguém sabe nada... O que sei é que amanhã muitas mezinhas e bruxedos vão aparecer junto ás fontes, castros, igrejas, penedos e cruzeiros de todo o meu pais!

O que sei é que às 10 horas da noite ainda é dia. Ainda os melros cantam, passeamos pelos caminhos de terra sem precisar de arreguilar os olhos!

O que sabemos todos é que estes são dias especiais. Não sabemos porquê mas todos adivinhamos algo no coração!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A lenda dos 4 Irmãos


Existe a poucos minutos a pé de minha casa um local estranho onde se pode ver um enigmático monumento de pedra cujo dizem os antigos, serem as 4 campas de 4 irmãos.

A lenda que é conhecida de todos nas freguesias vizinhas conta que:

Eram quatro irmãos. Fortes e belos. E amigos. Como não se conheciam outros. Quatro irmãos, órfãos de pai e mãe. Mas tão unidos que serviam de exemplo. Exemplo de lealdade e de compreensão.

Pois os quatro irmãos viviam ali, na freguesia de Sande, no cenário paradisíaco do Minho, e andavam sempre juntos. Um dia, o mais velho disse para os outros três:

- Rapazes! Vamos hoje à Feira Grande. Já tenho o carro aparelhado. Voltou - se para o mais novo.

- Tu, arranja o farnel!... Leva bastante comida, Hem! Vamos lá passar todo o dia e talvez mesmo um bocado da noite.

Depois dirigiu-se aos outros dois:

- E vocês preparem mantas para o regresso. Podemos voltar tarde e é capaz de arrefecer. Temos de ter cautela com a saúde!

Não tardaram a ser cumpridas as ordens do irmãos mais velho. Este esfregou as mãos, jubilosamente.

- Assim, até apetece.Quando nós, os quatro irmãos, nos metemos ao trabalho, tudo se faz numa instante!

Riram todos. Quatro gargalhadas frescas e sadias.

Apontando o carro já preparado para a viagem, o irmão mais velho acentuou: - Vai ser um dia bem passado, lá isso vai!... Ou muito me engano, ou a Feira Grande este ano subirá de fama nas redondezas!

Os outros três corroboraram logo:

- Claro! Nós somo bem conhecidos e já nos esperam com toda a certeza! - Seremos mais uma vez a grande atracção da feira, vocês vão ver! - Quem é que pode resistir a boa amizade de nós quatro?...

E os quatro irmãos tomaram os seus lugares no carro e abalaram de corrida para a Feira Grande.

Tudo se passou tal como eles pensavam. A certa altura, tinham-se transformado nos heróis da Ferira Grande. Quatro heróis. Sempre juntos, sempre amigos!

Porém, a multidão foi crescendo, aumentando, e acabou por separá-los, mau grado deles.

O mais novo dos quatro irmãos viu-se de súbito diante duma jovem de extraordinária formosura. Pareceu um pouco aturdido. Não se sentia bem. Faltava-lhe a companhia dos outros três. E tentou continuar à procura deles. Mas a jovem formosa cortou-lhe a passagem, olhou-o bem de frente e disse sorrindo:

- Escusais de pensar encontrar agora os vossos irmãos.

E acentuando o riso e o olhar:

- Fui eu própria que vos separei.

O mais novo dos quatro reflectiu primeiro com surpresa, depois curiosidade. - Vós, Senhora?... Mas.para quê?...Por que motivo?

Ela inclinou-se para a frente. O seu perfume perturbou-o.

- Não gosto de concorrentes.Até à vossa chegada, era eu a rainha da festa! Foi a vez do jovem sorrir.

- E continuais a ser, sem dúvida alguma.

Depois, talvez arrastado pelo perfume que aspirava, prosseguiu:

- A vossa beleza, Senhora, é superior a tudo quanto nos rodeia!

Ela meneou os seus belos cabelos negros, num ar de graça.

- Obrigada pelo madrigal!...Já vejo que sois poeta!

O rapaz começou a sentir-se mais à vontade.

- Se poesia se pode chamar à verdade, Senhora.Então, sim, sou poeta para cantar a vossa formosura.

Sem querer ( ou talvez não) as mãos dela tocaram as mãos dele.

- Deveras me lisonjeais com tais palavras.Embora ainda tão novo, já sabeis falar muito bem!

O seu olhar tornou-se muito triste.

- Mas sereis eu merecedora de tanta atenção?...

O mais novo dos quatro irmãos empertigou-se. Ganhou figura.

- Digo-vos mais, Senhora. Se vós quisésseis.

- Se eu quisesse?...

- Poderíamos ser felizes!

Calaram-se. Ela, a meditar. Ele, surpreendido com a ousadia das suas próprias palavras. E ainda desta vez foi a jovem bela e estranha a primeira a falar. - Que dirão os vossos irmãos. quando souberem do nosso encontro?

Ele pareceu cair do sonho na realidade. Teve um movimento brusco de enervamento, a traduzir íntima inquietação.

- Tendes razão, senhora. Preciso de falar imediatamente com os meus irmãos. E agora, atrevidamente, foi o rapaz quem segurou as mãos dela, apertando-as nas suas. Com a violência do amor da juventude.

- Senhora, por tudo vos peço que não vos afasteis daqui. Eu voltarei em breve, para ficarmos juntos até à feira acabar!

Multiplicando-se em esforços, o mais novo dos quatro irmãos foi rompendo por entre a multidão, até que finalmente conseguiu encontrar os outros.

Ofegante, correu para eles.

- Irmãos!... Irmãos!... Ainda bem que os encontrei!

O mais velho fitou-o. Curioso e inquieto. Talvez desconfiado.

- Que se passa? Que tens tu?

Então o outro , lentamente, olhou os três, um por um, e disse devagar, silabando bem para que ouvissem melhor.

- Apaixonei-me!

Houve gargalhadas. Mas gargalhadas diferentes. Conforme as reacções de cada um.

- Deves ter bebido, com certeza!

- Apaixonado? Por alguma rapariguita da tua idade?

- Que partida é essa que tu nos queres pregar?

Mas, sem fazer caso, nem da troça, nem do desdém, nem da descrença, o mais novo dos quatro contou o seu maravilhoso encontro com a jovem formosa.

Os comentários choveram imediatamente:

- Se ela é assim, eu também a quero ver!

- Primeiro estou eu, que sou mais velho do que tu!

- Isso não interessa. Quem chegar primeiro é que vence!

- Porque não a trouxeste contigo?

- Foste um parvo! A esta hora já fugiu.

- Eu vou procurá-la!

- Nada disso. Quem vai sou eu!

De repente, o irmão mais velho resolveu impor a sua autoridade. Pela primeira vez na vida dos quatro irmãos.

- Calem-se! Sou eu o mais velho de todos. Portanto sou eu que vou falar com a tal jovem. Depois lhes direi a minha opinião.

Simplesmente, tal como se conta, ele esqueceu-se de perguntar qual o local onde a rapariga ficara. E, assim, teve de percorrer a Feira Grande em várias direcções, sem que a descobrisse.

Já estava prestes a desistir, quando ouviu alguém rir mesmo junto de si. Voltou-se. Era uma rapariga estranhamente bela.

- Não me digais que sois vós o tal irmão mais velho que anda à minha procura.

Ele suspirou. Encontrara-a, finalmente! E confessou:

- Sou eu, sim . E tenho muito prazer em verificar que o meu irmão mais novo falou verdade!

Ela tornou a rir. Um riso cristalino mas esquisito.

- Perdoai, Senhora. Posso saber porque razão estais tão alegre?

Ela envolveu-o num olhar meigo e perturbador. Irónico também.

- Estou a rir. porque já todos passaram por aqui. Os outros vossos três irmãos! - Eles fizeram isso?

- E porque não?

As duas perguntas quase se chocaram. Depois o irmão mais velho tentou esclarecer:

- Não o deviam ter feito.Sabiam que eu tinha vindo precisamente à vossa procura. Para falar primeiro convosco, Senhora!... Eu tenho essas primazia. Sou o mais velho dos quatro!

Os olhos dela semicerraram-se, num olhar felino.

- Pois escutai, então. Eles passaram por aqui. e estão apaixonados por mim! Seria um desafio? Ele assim o entendeu. E não hesitou na resposta:

- Pior para eles!... Só eu, Senhora, tenho direito ao vosso amor!

A surpresa pareceu estampar-se no rosto da rapariga. Surpresa sincera. Surpresa grande.

- Como? Que dizeis?... Tendes o direito ao meu amor? Porquê?

Ele compreendeu que se excedera. Procurou adoçar a explicação:

- Bem vedes, Senhora. Sou o mais velho dos quatro. O mais experiente. O que mais vos pode oferecer. Os outros dependem de mim.

Entendeis-me, não é assim' Como mais velho, devo ter sempre a prioridade! Ela pareceu não se conformar.

- Enganais-vos. Em amor, não há prioridade. Só eu posso decidir. Ouvis bem? Só eu quero decidir!

O homem achou melhor não prolongar a discussão. E limitou-se a perguntar: - Se assim é. que decidis?

Altiva, mais bela do que nunca, a estranha desconhecida ditou então ao vento a sua resposta, como se o vento levasse as palavras para a eternidade: - Quereis saber o que eu disse aos vossos três irmãos?... Escutai, pois: Casarei com aquele que entre vós for o mais valente e o mais forte!

Agora foi ele a rir. Um riso de triunfo.

- Mas, Senhora, eu sou tudo isso!

E logo ela, num ar gaiato e provocante, inquiriu:

- Como o provais?...

Diante da falta de resposta, continuou:

- Cada um dos vossos três irmãos afirmou também que era o mais forte e o mais valente!

- Mas eu sou o mais velho, Senhora!

Ela encolheu os ombros, espicaçando-lhe o brio.

- Isso nada prova!

O homem agarrou-a pelos ombros, num decisão súbita.

- Que desejais?

E a rapariga, libertando-se sem grande esforço, acentuou pausadamente:

- Já que me quereis. é preciso que os quatro lutem entre si, até que um fique vencedor dos outros três. Esse será o mais valente e o mais forte. E esse será também o que me conquistará !

O mais velho dos quatro baixou a cabeça. Parecia vergado por um peso enorme. Talvez o peso da própria consciência.

- Senhora, o que pedis é realmente terrível!... Assim se destruirá para sempre a amizade dos quatro irmãos. Uma amizade que vale como exemplo, Senhora! A resposta dela foi cruel, mas excitante:

- Eu só poderei pertencer a um de vós.e não aos quatro! Não pensais assim? O homem hesitou ainda, antes de falar. Por fim, as palavras saíram em voz soturna:

- Pois será satisfeito o vosso desejo, senhora. Vou à procura dos meus irmãos!

Mas logo a jovem formosa, intencionalmente aproximou-se dele e apontou para bem perto.

- Não vos canseis. Eles já estão à vossa espera, lá em baixo. Foi um encontro brutal. Os quatro irmãos (antigamente tão amigos e unidos, como outros não havia) olhavam-se agora cheios de rancor.

Pela primeira vez nascera o ódio entre eles. Um teria de matar os outros, para mostrar que era o mais forte e o mais valente. E conquistar aquela mulher estranhamente bela, que os olhava lá de cima, como que envolta numa auréola de luz. De luz ou de fogo?...

A luta começou. Luta de vida ou de morte. De qualquer modo, luta de tragédia, entre quatro irmãos que até bem pouco antes eram exemplo de compreensão e lealdade!

O mais velho foi afinal o primeiro a sucumbir. Depois outro. E logo outro. Por prodígio, aquele que conseguira resistir até ao fim era o mais novo. Mas também pouco lhe restava de vida. Ele bem o compreendeu, ao olhar os corpos dos irmãos caídos por terra.

E então, sem voltar a olhar sequer lá para o cimo, onde estava a mulher desejada, começou a arrastar-se, com as poucas forças que lhe restavam, a caminho da igrejinha que ficava próximo dali.

Foi desse modo que lá conseguiu chegar. Esvaindo-se em sangue.

Morrendo aos poucos.

Quis levantar-se, mas caiu nos braços do prior.

- Padre, meu bom padre. ajudai-me!

O sacerdote impressionou-se.

- Meu Deus! Nesse estado. Mas que aconteceu?...

Em voz agonizante, mal se ouvindo por vezes, o pobre rapaz, único sobrevivente dos quatro irmãos, contou a sua história triste. Triste e dolorosa. O padre benzeu-se rapidamente e benzeu o moribundo.

- Meu pobre filho. Tu e os teus irmãos foram certamente enganados pelo Demónio, na figura de uma mulher perversa.

E suspirando, de olhos erguidos ao céu:

- Meu Deus, fazei que ao menos se possam salvar as suas almas!

Com muito custo, o sacerdote conseguiu levar o rapaz agonizante ao local onde se desenrolara a terrível e singular batalha. Mas, chegados ai, o jovem não resistiu mais. Tombou também para sempre, ao lado dos outros. De novo estavam juntos, os quatro irmãos!

Lá os enterrou, o bom sacerdote, colocando-os lado a lado, rezando-lhes as últimas orações, para que as almas não se perdessem.

E fosse pelo que fosse, a verdade é que sobre a campa de cada um dos quatro irmãos surgiu, mais tarde, um penedo, que passou a marcar para o futuro a triste sepultura.

E a povoação que depois se ergueu nesse mesmo local a denominar-se a Terra dos Quatro Irmãos. E, mais modernamente, apenas Quatro Irmãos.

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A lenda é originária da freguesia de Sande São Martinho a Norte do Concelho de Guimarães.

Comentando esta história de um ponto de vista menos romântico e mais racional, é óbvio que esta lenda tem um forte conteúdo religioso.

Era comum (e ainda talvez o seja) na era católica inicial, associar o demónio às mulheres. Este relacionamento reflectia os medos e receios que a igreja propositadamente transmitia às populações para que estas não se deixassem cair em tentação.

Especulando na origem desta história, lembro-me que foi enviado para a Gallaecia no séc. VI por ordem do papa São Martinho de Dume. Este, ficou-se pela capital Bracarense e estava encarregado de acabar com as incontáveis práticas de paganismo do Galaicos. A proibição de certos rituais e a mais que frequente associação de tudo o que era negativo às mulheres pode ter originado muitas destas lendas.

Inicialmente, o nosso povo de cultura Celtica-Atlantica venerava as mulheres e tratavam-nas com todo o respeito. Os porcos romanos invasores que destruiu a cultura original relataram que as mulheres lutavam até lado a lado com os guerreiros Galaicos. Além disso, existem muitas esculturas Castrejas e da era megalítica que demonstram a devoção e divinação a que as mulheres eram alvo.

Obviamente, para acabar com tão pérfidas e descabidas crenças (onde já se viu respeitar as mulheres!! Estes pagãos ignorantes que éramos enchem-me de vergonha...), as beleza da mulher foi condenada a obra do diabo e todas as que saiam da estreita linha comportamental católica ficavam com o rótulo de bruxas e sujeitas a serem queimadas vivas nas fogueiras.

Até Maria Madalena, fiel e amante a Jesus Cristo foi conotada de prostituta...

Portanto, nesta lenda é clara a intenção de manipular os hábitos e instintos das populações através do terror.

O que me intriga mesmo é o monumento em si. Os símbolos e alguns dos seus elementos reportam para épocas pré-medievais... Precisamente a época em que São Martinho de Dume chegou às terras Galaicas...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Esta é...

Quando se fala de Folclore logo os meus ouvidos dão sinal. Activa-se o sistema e logo tenho de partilhar a minha opinião. É practicamente infalível e muitas vezes doentio e outras trazendo problemas. Mas, ser minhoto não é fácil!

Ora falou-se em "melhores grupos folclóricos"... de Viana!

Para começar devemos deixar bem claro que Folclore e grupos folclóricos são coisas diferentes, pois não é (ou não parece) objectivo desses tais grupos a representação fiel do que é sagrado! Sim, pois a história de Portugal - a nossa história - é sagrada!...

Então mas afinal o que é Folclore? O que é ser minhoto? O que é ser português? É ter trajes brilhantes? Falar com pronúncia? Aplaudir a selecção nacional?!

Sejamos honestos, a música e dança folclórica nunca poderão competir com a 'moderna'. Primeiro porque a primeira não pode ser apenas recreativa. Terá de ser algo mais, algo que nos ensine um pouco mais!... Uma história, um romance, uma disputa, uma fé... não apenas um mero entretenimento como é, vá, uma ida ao circo. Com isto digo e sublinho que a segunda nunca poderá ser mais portuguesa que a primeira!... Mas às vezes, muitas vezes, vezes demais, parece...

A palavra folk-lore foi criada para designar as tradições de um povo numa região...

Falando de Viana da Foz do Lima, como me pediram... é dificil avaliar quem será melhor. Diz-se que Viana é a capital do folclore (1ª mentira - o folclore é global!) depois porque os grupos de Viana têm anos e anos de aperfeiçoamento das suas mentiras... e claro, em alguns casos do seu folclore também!...

Podereis discordar comigo, mas existe um certo 'abuso' no 'folclore' vianense. Um mostrar que é exagerado. Como se tudo o que se fizesse, fosse para mostrar ao público... isto é um pouco incoerente sabendo nós que as pessoas dançavam para elas próprias, para namorar, para se divertirem umas com as outras. Não é o que parece!... (isto não é so de Viana, mas é lá onde se leva ao extremo, na minha opinião!)

Não sejamos péssimistas em tudo, terão provavelmente o melhor trajar de todo o Alto Minho, à exepção de dois ou três trajes em quatro ou cinco grupos fora do concelho! Refiro-me claro, aos melhores (= mais conhecidos) grupos de Viana.

Mas mais uma vez, não passam de grupos de danças folclóricas (!)... onde estão o pregões? Os canticos de trabalho? Os cantares religiosos? As toadilhas de aboiar e de abaülar? Dos cegos? De embalar? Os cantos dos velhos romances? (como diria Gonçalo Sampaio!) As feiras? As romarias? Onde está afinal, aquilo que é de facto mais folclore?

Na minha visão perfeccionista os 'melhores' são apenas razoáveis porque mostram pouquíssimo do que deveriam mostrar!... Isto no geral e não apenas em Viana!

Então, mas qual o melhor? O melhor de Viana!
Dentro desta mediocridade escolheria, talvez, o GF de Santa Marta pelo trajar e dançar (ainda que desfazendo de várias danças). No cantar, deixam todos muito a desejar!... Não esquecer que cada um terá algo bom a aproveitar (os vários trajes mencionados por Cláudio Basto, o Saracú de Lanheses, a Contradança de Perre, etc) mas no geral opto por Santa Marta!

Pessoalmente acho que existem outros melhores em termos de recolhas de danças e de apresentação em palco!...

(Lamenta-se a qualidade do som!... Mas atente-se à apresentação do Grupo Folclórico de Santa Marinha de Mogege - Famalicão)

É pena que muitos estejam a léguas de ser realmente um baluarte do folclore minhoto e português como se quer fazer crer (e já se fez muito!) para que um dia, que viajemos por qualquer parte do mundo possamos, através do nosso telemóvel de última geração (...), mostrar com todo o orgulho esse tal fenómeno... e finalizar:

Contemplai,
Esta é a ditosa Pátria minha amada!

Eco dos antigos trovadores do Minho vol. I


O Cego

Abre-me essa porta,
e cerra-me o Postigo,
deixa ver um lenço
que eu venho ferido.

Se tu vens ferido,
podes ir-te embora,
que a minha portinha
não se abre agora.

Minha Mãe acorde,
nem tanto dormir,
venha ouvir um cego
cantar e pedir.

Se ele canta e pede,
dá-lhe pão e vinho,
diz ao triste cego
que siga o caminho.

Não quero o seu pão,
nem quero o seu vinho,
quero que a menina
me ensine o caminho.

Vai lá minha filha,
com a roca e linho,
e vai com o cego
guiar-lhe o caminho.

Espiei a roca,
acabou-se o linho,
siga o triste cego
por este caminho.

Venha mais menina,
venha mais além,
sou curto da vista
não vejo ninguém.

Não te vás embora,
vem cá, meu encanto,
tem dó deste cego
que te ama tanto.

Adeus minha casa,
adeus minha terra,
adeus minha Mãe
que tão falsa me era.

Por condes e Duques,
eu fui pretendida,
e afinal dum cego
me vejo vencida!

Fonte:

terça-feira, 10 de junho de 2008

Acordar no Minho


Acordar no Minho em dia de feriado é algo de muito especial. Especialmente se tivermos tido uma longa noite de insónias que nos permitiu desta maneira ouvir tudo o que havia para ouvir.

As noites não são silenciosas como são em outras áreas rurais do País. Por todo o Minho existem aldeias. Há vizinhos em todo o lado, estradas que levam a todos os locais através de multitudes de opções todas diferentes. Os jovens, quando está bom tempo, ficam cá fora até altas horas o que causa um constante burburinho nas estradas e, quando estes voltam a casa, já os mais velhos estão a pé há muito.

Depois há os animais. Quanto mais clara for a noite, mais intratáveis são os cães. Ladram, uivam, ganem dando sequência ao que deve ser por certo rituais milenares. A coruja e o mocho competem pelo território. Um em cada poste de luz, marcam com cadência a passagem das horas. Um berrar entoa no vale, um bovino de qualquer vacaria ou vizinho protesta em vão. Os gatos estes sao silencioso a não ser que estejamos em maio.

Vem a madrugada, chega-nos o sono. Porém, uma sinfonia aumenta lentamente. Em poucos minutos uma estrondosa onda de sons entra-nos pelas janelas dentro. Pardais, Melros, Cerejinas, Pintassilgos, o Cucu, os canários domésticos, alguns Gaios barulhentos no carvalhal mais próximo e muitas outras aves despertam para iniciar a sua incessante procura por alimentos.

Há! E os Galos claro!

video

Apesar de considerável, este ruído natural é entorpecedor e relaxante. Estamos a adormecer quando tocam os sinos. Mas no Norte, quando tocam os sinos para a missa do cedo, não se houve apenas uma igreja ao longe. No Norte, onde há mais que uma igreja em cada pequena freguesia, quando se chamam os fiéis (cada vez menos e cada vez mais velhos) chamam todos ao mesmo tempo. Uma amálgama de sinos entoam pelo vale, montes, carreiros, lugares, bouças, outeiros, soutos, morreiras, agras etc. Tocam as dos vales, as dos cumes dos montes, a das encostas. Cantam também as capelas, as igrejas, os santuários, os Mosteiros. Hoje ouvem-se mais estas mas, se o vento virar ouvem-se mais aquelas.

Estou quase a dormir. Os sinos, apesar de ser ateu, também reconfortam. São sons que associo à minha infância logo, são de certa forma relaxantes. Agora, com o aproximar da hora da missa, tocam os quartos de hora. As meias horas, e as horas. Multiplicam-se os soares religiosos.

Agora não estamos em tempo de caça. Se estivéssemos era o momento de começar a ouvir os primeiros cartuchos a estoirarem no ar. Mas mesmo assim existem explosões. E feriado, por isso, algumas freguesias vizinhas tem festividades programadas. Mesmo numa zona com algum urbanismo próximo, os foguetes são essenciais. Rebentam as salvas não sei bem porquê. Talvez seja para indicar à população que ali vai haver festa.

Estou quase a desvanecer e o dia já brilha há largos minutos. Alegria inconveniente penetra no meu quarto. Das colunas das torres das igrejas soltam-se modas minhotas. Agora que as missas acabaram há que dizer ao povo que os feriados são para isso mesmo. Celebrar.

Desta vez sinto-me mesmo adormecer. O folclore funciona para mim como boa musica de embalar.

Do alto das torres chegam-me os versos:

"Eu fui dar com o velho morto
Atrás da porta da loja
Eu fui dar com o velho morto
Atrás da porta da loja

"Atirei com uma tranca
Olha o Velho como foge
Atirei com uma tranca
Olha o Velho como foge"



Assim se passa uma noite em branco no meu verde vale.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Jogar à bola em terras galaicas 2


Na minha infância, por norma, jogava-se à bola em qualquer sítio.

Especialmente, no meio de um campo enquanto se andava a pastar as vacas, nos caminhos públicos à luz de um poste de electricidade e nas eiras onde se malhava o milho e centeio.

Mas era uma actividade pouco acarinhada pelos mais velhos.

Primeiro porque, no caso dos caminhos públicos, estes tinham geralmente ramadas de vinhas por cima e uma “bolada” menos cautelosa poderia partir as vides e comprometer a colheita de vinho.

Segundo porque, quando se jogava nos campos existia o mesmo problema das vinhas, acrescido do facto de um “bolada” poder atingir a hortaliças da horta mais fresca!

No caso de jogar nas eiras, não era bem visto porque a todo momento, uma “bolada” poderia atingir facilmente um vidro de uma janela ou mesmo fazer estragos nos telhados das casas.

Quando alguma destas situações acontecia, ou nos furavam a bola ou éramos “corridos” à “sachulda. Acrescido muitas das vezes com uma “coça” dos nossos pais!

Era um desassossego este desporto da “canalha”!

Um do pormenor interessante era o facto de muitos de nós jogarmos à bola não com sapatilhas ou chuteiras mas sim com as míticas “botas de couro ou cabedal”.

As sapatilhas eram vistas como um calçado carro, geralmente exclusivas para andar aos domingos. Só quando ficavam gastas é que se usava para jogar à bola.

Comprar chuteiras estava fora de questão. Era calçado que não se podia calçar todos os dias. Muito menos era calçado para levar para a escola!

A melhor escolha eram as míticas “botas de cabedal”. A gente podia ir para escola com elas de Inverno e Verão. Calçado também apropriado para as lidas do campo e, embora o desconforto, uma boa solução para dar uns valentes chutos na bola!

Para que este calçado perdura-se por muito tempo, era habitual untar as botas com banha de porco guardado das matanças do porco, o chamado “unto”!

Não só tornava as botas impermeáveis à água como dava tratamento e resistência ao couro!

E por falar em matanças de porco, devo dizer que o momento mais aguardado pela canalhada, era quando o matador extraía a bexiga do animal!

A gente pegava na bexiga, enchia-a de ar com uma palha como se fosse um balão, e
faziamos daquilo a nossa bola de futebol!

Agora tudo é diferente, a começar pelas matanças do porco que estão incompreensivelmente proibidas!

Jogar à bola em terras galaicas 1


Na minha terra natal existem dois campos de futebol. Um de 11 e um outro chamado “campo de futebol pequeno” que era utilizado, esporadicamente, pela pequenada.

Este último foi construído num lugar cimeiro onde curiosamente, depois de efectuados os desaterros, foram descobertas umas pedras com inscrições e outras circulares em forma de mós de moinhos.

Talvez se trate de escudos de estátuas de guerreiros galaicos e outros vestígios, que em meu entender testemunham a existência de um antigo castro galaico pois os antigos chamam a esse local "os castros"!

(Se alguém entender estudar esta questão pode sempre pedir mais informações!)

Mas antes de existirem os campos de futebol, já se jogava à bola como forma de atestar a rivalidade entre as diversas terriolas. Por vezes essa rivalidade existia dentro da própria aldeia.

Contam os meus tios e os meus pais que se organizavam jogos entre os rapazes da freguesia.
Os do “lado de lá do rio” contra os do “lado de cá do rio”!

O que acontecia era que geralmente havia mais porrada do que jogo de bola.

O jeito era pouco e a rivalidade muita. As condições também não eram as melhores, pois muitos desses jogos eram feitos em campos que tinham ficado de “velho”, com piso muito irregular!

Quando a coisa corria mal, os jogadores digladiavam-se ao murro e à pedrada.
Era comum apedrejassem ao longo de várias horas, refugiando-se nos montes e fazendo perseguições e ciladas uns aos outros!

Não havia espaço para FairPlay. Vale o facto de que este tipo de iniciativas só aconteciam uma ou duas vezes por ano!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Paganismo Vs Catolicismo


Todos já ouviram falar acerca das bruxas que populam o nosso imaginário e as nossas aldeias.

Ninguem acredita nelas mas que as há, isso há!

Eu, pessoalmente, tenho o maior respeito por estas pessoas pelo simples facto delas continuarem a perpetuar uma arte e compilação de crenças mais antigas do que qualquer ritual católico.

Bruxas há as em todo o lado. Porém, o Norte de Portugal é especial. Em qualquer sítio podem se encontrar mezinhas e restos de rituais cujas perversas autoridades eclesiásticas consideraram satânicas e que os neo-celtistas dizem ser Wicca.

Podem pensar mais uma vez que estou a fazer demagogismo ou que estou a ser chauvinista porém, para quem conheça a história de um reino chamado Gallaecia, isso não apresenta qualquer surpresa.

A maior prova de que o paganismo (neste caso, um conjunto de crenças do ramo Celta) era a maior demonstração religiosa dos Galaicos está patente por exemplo no envio de São Martinho de Dume a Braga pelo papa, para que este acabasse de vez com estas práticas intoleráveis. Também a invenção do Milagre de São Tiago (visando um ressurgimento da fé católica para forçar a reconquista das terras aos infiéis Mouros) demonstra bem o pouco interesse que os Galaicos tinham para com este estrangeiro chamado Jesus que se dizia ter ressuscitado.

Que tinha isso de especial? O panteão divino Celta baseava-se também na temática da ressurreição... Justifica-se também por aí o facto do catolicismo ter sido tão facilmente e intensamente absorvido pelas comunidades Celtas de toda a Europa. Na verdade, o catolicismo está tão embrenhado de cultos e rituais pagãos que uma pessoa esclarecida acha sempre piada a certas situações.

O que interessa aí é que até bem dentro da alta idade média o povo era pagão. Até hoje, nos mais variados locais encontram-se pequenos sacrifícios e estranhas mezinhas. Qualquer lua cheia ou equinócio é suficiente para que uma horda de desconhecidos subam as serras e aos locais de cultos milenares pré-católicos para repetirem hábitos ancestrais.

Este povo é assim. Fiel às suas origens.

Vejam com atenção por baixo dos penedos sagrados, dentro dos sombrios Carvalhais, nas proximidades dos castros e citânias. Olhem com cuidado para as áreas megalíticas e nos locais a que os antigos chamam de "Moura" ou "Mouros"(Por.ex: Poço dos Mouros, Cidade dos Mouros).

Não há coincidências neste mundo. Apenas lógica e sequências de acontecimentos que escrevem a nossa história.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Rosas Bravas

E lá estavam, ornamentando discretamente uma parcela do caminho.

Pela estrada sinuosa, de um lado a citânia milenar e as suas ruínas melancólicas, no outro um vale verdejante brilhando, viçoso, à luz do sol.

E lá estavam, selvagens e anónimas, esquecidas, tão pouco estimadas como o deveriam ser, aquelas pequenas Rosas Bravas.


Há nos teus olhos um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.

Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio Amor!

Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!

Tua irmã…teu amor…e tua amiga…
E também, toda em flor, a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!…

Florbela Espanca - Reliquiae

domingo, 1 de junho de 2008

Tempo, dias, minutos e horas!




Deus guarda as horas
O tempo vai passando e a eternidade vai chegando
O relógio marca as horas
Tu contas as horas




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Este texto é acerca da gnómica.

Não, isso não é nenhuma ciência do paranormal que procura os gnomos que vivem escondidos nos carvalhais encantados.

Gnómica vem do grego gnómon "o que indica".

O sol sempre foi um aliado dos povos de todo o mundo. Através dele até na pré-história conseguíamos com a maior precisão saber que hora era e em que estação estávamos.

O sol não é mentiroso e não se deixa subornar por interesses práticos. Através do sol sabemos que horas são e não as horas que convem que sejam. O sol não nos diz que hora é em cada país. O Sol diz-nos que hora é em cada região, cidade, aldeia.

O sol consegue-nos dizer que no mesmo momento, cada local no mundo é único pois tem uma hora só para si.

A implantação da republica (1912) acabou com o papel dos relógios solares da mesma forma como aniquilou a verdadeira bandeira de Portugal (material para outra história). De facto, quando a república começou a implantar as suas raízes, uma das primeiras medidas foi aderir à hora internacional de Greenwich.

O sol passava de um dia para o outro de, pedra basilar do ciclo de vida do povo, para um ingénuo ser da constelação que não consegue adaptar-se ao novo super ser humano. Um ser humano que decide ele mesmo que horas são.

O sol hoje, e para todos os efeitos, é mentiroso!

Podem observar no Minho centenas destes mostradores em ruínas. Estes que durante tanto tempo marcaram as orações dos fervorosos católicos Nortenhos.

A maior concentração destes modestos mas não menos nostálgicos elementos arquitectónicos nesta terra atlântica justifica-se pela ausência de domínio Mouro e por uma muito menor influencia do judaísmo.

Para os católicos era importante os ritmos de oração, as horas a que as efectuavam e o tempo que duravam. Esta rigidez implementou nas autoridades monásticas a necessidade de regular e medir o tempo mais do que em qualquer outra terra deste novo território a que chamavam Portugal.

Olhem hoje para as igrejas, casas senhoriais, palacetes e até à entrada de casas antigas, quintas abandonadas etc. Quase invariavelmente lá está um relógio solar. Aprendam a apreciá-los pela sua beleza e importância crucial na vida das pessoas que vieram a dar-nos a nossa.

Os relógios solares são para mim o emblema máximo de uma das mais importantes virtudes do ser humano:

A honestidade!