quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Banhos no mítico Atlântico!

Bom, aproximamo-nos do fim de ano civil de 2008, e confesso que não dou grande valor a toda esta folia “moderna” que desperta no mais comum dos mortais.

Mas uma das tradições que mais me fascina, nesta quadra festiva, é sem dúvida os populares banhos de mar que centenas de pessoas fazem questão de ritualizar ano após ano.

Por toda a zona litoral da antiga Gallaecia (e não só) a tradição é comum. Claro que a maior parte das vezes assume unicamente um carácter lúdico e folião.

Mas desconfio que esse costume simplesmente perdeu o seu carácter original “primitivo”, mas mantendo-se com uma simbologia popular associada ao meio aquático.
No fundo, os banhos de mar, para além de uma maneira divertida de marcar esta data, significa um ritual de passagem.

Falando-vos de uma maneira breve, a água foi é continua a ser dos elementos mais simbólicos e canalizadores de energia que temos! Para os nosso antepassados galaicos a água simbolizava vida e criação mas também morte e destruição.

Para os galaicos, os meios aquáticos eram também condutores até ao outro mundo, um mundo invisível que estava interligado com o mundo real. Assumia então um carácter divino e muitas das vezes associado à renovação, iniciação e purificação! Percepção essa que foi preservada pelo Cristianismo até aos nosso dias.

Muitos rituais relacionados com os meios aquáticos são reconhecidos pelos arqueólogos e historiadores. Na sua maioria rituais de iniciação, oferendas e sacrifícios. Ao falar-vos deste tema, não posso deixar de recordar os banhos nocturnos em dias de S. Bartolomeu, nem mesmo o simples gesto de deitar uma moeda no lago do Bom Jesus do Monte, entre muitos outros!

O povo continua a sentir a presença de uma potência misteriosa na água! E assim, as tradições vão-se mantendo ano após ano!

Votos de bons banhos defensores Galaicos!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma imagem da quadra festiva...

Andei algum tempo a tentar encontrar algo que dizer sobre as festas que estamos a atravessar.

Algo que, contudo não fosse cliché e não batesse na mesma tecla. Um dia à noite tentei rebuscar na minha mente o que é que me fazia recordar esta época especial, já divina há muitos milhares de anos.

Que imagem, que cheiro que cor, que som ou que hábito representava as festividades do Equinócio de Inverno, vulgo Natal e Ano Novo. Cheguei à conclusão que uma das mais marcantes práticas que ficaram gravadas na minha memória tinha sido o jogo do "RAPA".

Desde as minhas mais antigas lembranças que me recordo deste jogo. Jogava com o meu pai e tios enquanto se esperava pela meia noite. Porém, todo o processo anterior era igualmente importante.

Antes das festas mandavam-me ir a uma quinta onde existem ainda uns enormes e antigos pinheiros mansos. Trazia um saco delas, pesadas e resinosas. Esta tradição ficou-me de tal forma memorizada que ainda sou capaz de lhes cheirar o aroma.

Durante a ceia de Natal punham-se as pinhas a aquecer perto da lareira. Em pouco tempo abriam-se e largavam os seus saborosos frutos. Com eles, podíamos então começar a rodar o Rapa apostando os pinhões.

O jogo é simples. Cada um mete um ou dois pinhões no meio da mesa e roda-se um Rapa um e cada vez. A letra D significa "Deixa". Portanto, não tira nem mete pinhões na mesa. O P refere-se ao "Põe". Logo, mete mais pinhões na mesa. O T, este quer dizer "Tira". Por isso, tira pinhões da mesa. A letra mais desejada é o R. R de Rapa e, neste caso, o jogador fica com todos os pinhões que ficaram em jogo.

A simplicidade desta pequena tradição conseguia recriar o principal objectivo do Natal: Unir a Família num convívio que por vezes torna-se raro.

Por isso, este ano comprei um Rapa numa velha loja de um centro histórico na qual já os tinha visto esquecidos numa prateleira cheia de pó.

As Pinhas, estas, já as pedi ao filho do dono da quinta. Curiosamente já não as vendem. Hoje, ninguém as quer por isso dão as com orgulho aos poucos que se lembram desta presença outrora obrigatória junto às lareiras de Natal...

sábado, 27 de dezembro de 2008

Antigos sacrifícios....

Muito ficou documentado acerca das práticas religiosas dos nossos antepassados. Os Romanos muitas vezes se referiram aos processos de oferendas que os antigos Galaicos utilizavam nas suas relações com os Deuses.

Arqueológicamente existem vários locais e evidências que suportam os relatos dos geógrafos do Império. Desde santuários de sacrifícios passando por representações em pedra ou ferro, os costumes daquele tempo demonstravam a relatividade que a vida então tinha.

Leiam este documento para toda a informação: http://www.uwm.edu/Dept/celtic/ekeltoi/volumes/vol6/6_6/marco_simon_6_6.pdf

Aí está o célebre Carro Votivo de Paredes, a mais valiosa peça da Sociedade Martins Sarmento e uma referência Mundial sobre o assunto.

Representa o transporte de virgens e de animais para o sacrifício. Note-se a particularidade dos bois estarem virados para ambos os sentidos representando a ida e a volta.

Junto a este magnifico exemplar jazia igualmente uma espada com que provavelmente seriam executadas as vítimas.

Os nossos antepassados tinham por hábito cremar partes dos corpos em estranhas covas esculpidas em rochas. Estes locais que podem ainda ser visitados quase anonimamente teriam sido aterradores santuários de oferendas.

Assim se celebravam equinócios, apaziguavam Deuses e se pedia boa sorte. Assim se morria à força ou, quem sabe, com honra. No entanto, estes objectos e locais não deixam de nos fazer sonhar e estremecer...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Valores escondidos...

A procura pela espontaneidade e genuinidade é algo que fascina os membros de OGalaico.

Grande parte das vezes, quando procuramos estes "produtos" achamos-los através de um massificado processo de "fabricação". Este caminho pelo qual se prepara a oferta das nossas tradições é essencial para as dar a conhecer e valoriza-las mas, sob certos ângulos não tem a beleza nem o conteúdo que os fazem ser únicos. Falta-lhes o paladar do inesperado, da harmonia local-ocasião e sobretudo da naturalidade de uma envolvente que faça sentido. Como nos foi ensinado nas aulas de Património, os artefactos (sejam eles de pedra ou imateriais) só revelam o que realmente são quando no seu ambiente natural e estando minimamente contextualizados.

Recentemente fui a uma feira de artesanato e gastronomia onde provei famosos presuntos e bebi licores tradicionais. De facto gostei mas... não tive a satisfação que senti quando os provei nas antiga casa serrana entre pessoas "verdadeiras". Ali, degustei como deve ser. Com a simplicidade da rotina das gentes e sem este "processo" que a divulgação ao público exige. Por muito que queiram não se pode igualar com estes eventos a realidade, a não ser que se esteja a comer por comer, sem procurar nada mais com isso do que a satisfação e a alimentação do nosso corpo.

Certa vez 2 colaboradores de Ogalaico foram visitar um amigo de longa data na sua aldeia na Serra da Cabreira. Lá bebemos a melhor jeropiga que alguma vez provamos. Não veio da garrafa elaborada por designers mas directamente do pipo em madeira de carvalho. Não foi servida nos pequenos copos tradicionais nem à temperatura óptima mas sim com mosquitos numa malga de barro fanada e ao natural. Não havia musica nem luzes á nossa volta mas apenas a frescura do ar que se infiltrava pelas frinchas da porta da loja. Quase me arrisco a dizer que é assim, na penumbra e rodeados de instrumentos de trabalhos agrícolas manuais, que a jeropiga deve ser bebida!

Podem me vir quaisquer enólogos e gastrónomos contestarem as propriedades desequilibradas dos produtos caseiros mas o facto principal não se altera: E ali que ele sabe melhor. Nunca o "melhor" vinho do mundo me cairá tão bem do que uma malga de verde caseiro no intervalo de uma vindima. E isso, não há festivais, recriações, demonstrações ou representações que o possa imitar.

Tudo isso para lhes mostrar um pequeno vídeo. Há primeira vista não tem nada de especial. Parece mais um daqueles despropositados que aparecem aos biliões agora que qualquer um pode mete-los on-line. Porém, olhando mais atentamente e contextualizando-o devidamente, este torna-se muito bom. Mais um entre milhões de vídeos aparentemente aborrecidos mas que no fundo estão carregados de substância.

OGalaico, marcando presença num jantar de convívio natalício, foi a uma tasca típica com os amigos. Pouco depois, dois jovens que faziam parte de outra sociedade, pegam nas concertinas a mando de um adulto babàdo e lá demonstram as suas habilidades para gladio dos presentes que se divertiam com as modas da moda...

Uma velha senhora, daquelas que tão bem representam o Minho na sua jovialidade e presença, olhava mais ou menos desinteressada até dizer que sim senhor! Os miúdos dos Ranchos tocam muito bem mas.. não haveria nenhuma cantadeira do tempo dela que conseguísse fazer-se ouvir caso o folclore alguma vez tivesse sido exactamente aquilo.

Palavras puxa palavra diz ela aos jovens que o folclore real era mais pausado, mais calmo e, sobretudo, muito mais cantado que tocado! Continua dizendo que foi por isso que não quis participar no rancho folclórico daquela terra quando este foi criado. Para ela, aquela exibição não correspondia à verdade e era-lhe oca. Faltava-lhe o sal...

No entanto, o jovem tem no ouvido uma moda daquelas que se ouviam antigamente. Começa a percorrer o teclado de modo um pouco incerto lembrando-se das dicas que o seu professor lhe tinha dado sobre esta composição. Ao ouvi-las a velha cantadeira diz: Isso sim! Isso é uma moda Antiga, daquelas que cantávamos quando éramos moças!

Olha para o rapaz, espera pela altura certa, percebem com sinais mútuos quais os ritmos e tons correctos, e começa a cantar algumas quadras da sua infância. A sua voz está gasta mas não engana! Que grande cantadeira já deve ter sido! O rapaz luta para não falhar demasiado nas voltas e a senhora por vezes não consegue entrar a cantar...

Pensei para mim que isso sim era folclore. Folclore sem representação nenhuma. Sem preparação ou embelezamento. Tal como o presunto caseiro demasiado curado ou o vinho do lavrador desequilibrado, os defeitos é que dão a textura. A mim, soube-me melhor esta brincadeira de duas gerações opostas do que a vasta maioria dos eventos produzidos sob a insígnia da tradição.

Os mais velhos contentes por ver que ainda não se perdeu todo o seu mundo e feliz por ensinar. Os mais jovens contentes por mostrar que sabem e com sede de aprender mais.

E assim gira mais uma vez o mundo...



____________

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

"As Fachuqueiras"


Quem em Tempo de Natal, percorrer os Caminhos de Santiago e fizer o trajecto entre Monção e Melgaço, deve parar na freguesia de Penso, melhor dito S. Tiago de Penso, também, caminho de peregrinos e de portagem que ali é a porta de entrada do concelho de Melgaço.

E aí visitar a Capelinha de S. Tomé. É que, segundo reza a tradição, em véspera de Natal S. Tomé vai encontrar-se com o seu colega S. Fins, da margem galega. Então, assiste-se à "alumiada":

Pobres e ricos mal a noite cai iluminam com feixes de palha a arder "fachuqueiras",os caminhos por onde vai passar o venerando Apóstolo.

Apagado o lume come-se a "ceia". E há "tostas", arroz-doce, vinho quente açucarado.

___________________________

domingo, 7 de dezembro de 2008

A Negação da Origem parte II: O Mito Lusitano!

O Galaico fala obviamente da Etnia Galaica. Por Etnia supõe-se um conjunto de crenças, costumes, língua cultura e origens. E através destes traços que os Romanos distinguiram a Gallaecia da Lusitânia e é por isso que O Galaico escreve sobre esta terra como se ela fosse a terra mãe de Portugal. E de facto o é sem contestação possível.

Este Post aparece não para menorizar ou superiorizar uma região em relação à outra, mas para exclamar a Gallaecia como núcleo embrionário de Portugal.

Portugal é um fruto do Génio Galego e não Lusitano. Custe a quem custar.

Lusitanos Vs Galaicos:

Antes de mais há que referir que os historiadores que integram a Gallaecia dentro da Lusitânia fazem-no tendo apenas por base um texto de Estrabão. Esta era no entanto uma perspectiva muito inicial do território e portanto completamente simplificada.


E que viam os Romanos nesta altura? Uma federação de povos Ibéricos a lutar lado a lado comandados por um líder Lusitano chamado Viriato. E que grandes guerras estas! Em território Lusitano estes povos aparentados lutavam em prol da salvação comum e foram os únicos avender Roma en Guerra. Não foi apenas uma batalha que ganharam mas sim todo o Conflito forçando Roma a render-se e a assinar tratados.

Porém, os Romanos tinham sempre uma carta na manga: A batota. Subornaram os generais de Viriato e estes assassinaram-no. Sem liderança os povos da federação foram sendo derrotados um a um.

Depois de instalados e a controlar o ocidente Iberico, os Romanos começaram a ganhar uma perspectiva diferente da realidade. Diversas fontes referiram agora que a Lusitânia era coisa bem diferente do que inicialmente. Depois de verificarem In-Loco as diferenças entre os povos, criaram a Gallaecia. Província Romana que integrava um conjunto de tribos que viviam da mesma maneira numa área Geográfica bem definida com particularidades muito semelhantes. Estrabão o famoso geógrafo Grego ao serviço do Império disse:

"Assim vivem as populações montanhosas. Falo das que se seguem ao longo da costa norte da Ibéria, os Callaïcos, os Asturos e os Cantabros, até ao país dos Bascos e os Pirenéus. Todos vivem da mesma maneira."

Estrabão, Geografia, III, 3, 5-7

Estrabão nos seus relatos que, por sinal, são compilações de afirmações enviadas pelos verdadeiros observadores uma vez que nunca pos pé na Ibéria, acaba por se contradizer pois também diz:

"And yet the country north of the Tagus, Lusitania, is the greatest of the Iberian nations, and is the nation against which the Romans waged war for the longest times. The boundaries of this country are: on the southern side, the Tagus; on the western and northern, the ocean; and on the eastern, the countries of the Carpetanians, Vettonians, Vaccaeans, and Callaicans, the well-known tribes; it is not worthwhile to name the rest, because of their smallness and lack of repute."

Estrabão, Geografia, III, 3, 5-7

Assim, Estrabão refere que o Noroeste vive todo da mesma maneira mas que faz parte da Lusitânia. Apesar de não fazer nenhum sentido porque os próprios Romanos definiram uma província só para a Gallaecia tal como fizeram para a Lusitânia, isso é tido para muitos como certo: A Lusitânia engloba inicialmente toda a faixa atlântica independentemente dos modos de vida diferente, provas arqueológicas e as muitas menções posteriores em contrario de outros Geógrafos Romanos:

"Plínio o Velho (23 - 79) na sua historia natura define como limites da lusitana o douro a norte, o leste o Anas, o oceano a ocidente e sul incluindo entre os lusitanos o celtici e os conios..."

Pomponio Mela sec I dc - "de situ orbis " Descreve as cidades e rios da Lusitânia e afirma como Plínio que elas se estendem ate ao Anas."

“Claudio Ptolomeu SEC II Dc restringe a Lusitânia as terras entre douro e Tejo e descreve as suas cidades.”



Alias, podemos verificar na famosa revista On-Line BRATHAIR que:

"Estrabão na geografia chama a atençao para as diferenças nas anteriores delimitações da terra dos lusitanos e consequentemente para a ambiguidade da atribuição do nome lusitano aos povos limítrofes."

Não hajam dúvidas, se os historiadores se baseiam numa isolada citação inicial, porque hão eles de esquecer por completo as variadíssimas que se seguiram? Ou se acha os Romanos uma fonte credível ou não. Se acharem então tem de admitir que os Galaicos não são Lusitanos e, assim sendo, tem de aceitar que Portugal é Galaico e não Luso pois quem o criou e repovoou foram os Galaicos.

Por outro lado, se não acharem os Romanos fiáveis então tem de se basear na arqueologia como único testemunho. E essa, como sabemos, diz-nos o mesmo. Eram povos diferentes, como modos de vida distintos e que logo não podem ser considerados os mesmo.

Uma ultima referência para Martins Sarmento, o Self Made Arqueólogo e voluntarioso anti Celtista. Para ele, lusos e Galaicos são o mesmo povo. Melhor, os Galaicos são um povo Lusitano. Isso porque segundo ele, um povo que fala aproximadamente a mesma língua e tenha o mesmo panteão só podia ser uma e mesma coisa.

Pensando assim, então metade do mundo, como fala Inglês e é Cristão seria apenas um.

Igualmente,
comparando a Arte do Noroeste e a a sua língua original, teríamos de considerar os Irlandeses como sendo Lusitanos...

Sarmento menoriza ainda as próprias ruínas que tanto gostava. Dizia que era absolutamente comuns desde a pré-história fazerem-se defesas nos topos dos montes. Adiantou que a simbologia que se encontra gravada na pedra só não aparece a Sul porque ninguém a procura.

Pois bem, tantos anos depois, ninguém a encontrou porque simplesmente não existe ou porque foi totalmente substituída pelas influencias posteriores. O que para o âmbito deste Post da na mesmíssima coisa.

Atenção que os outros Castros que se encontram no resto do país não são castros Galaicos. Castro vem do Latim Castrum ou seja, vila, cidade ou edifício fortificado. Não confundir portando localidades muito a sul do Douro que tenham Castros com estruturas Galaicas.

Castros Galaicos tinham especificidades únicas:

Pedras Formosas:

Saunas:



Estátuas de Guerreiros - Divindades protectoras nas muralhas:

Uma organização habitacional característica e comum a toda a civilização Castreja:


E, pelo que disse Martins Sarmento, uma incrível semelhança ao nível da construção das suas muralhas que quase pareciam “ter sido feitas pela mesma mão”. E disse isso comparando castros Galegos com os do Norte de Portugal (desculpem o pleonasmo):


A Era Romana:

A Era Romana também nos traz perspectivas interessantes no que toca à diferenciação entre Galaicos e Lusos. Aliás, é nesta era que se crias um distanciamento concreto entre os Lusitanos e os Galaicos que antes disso tinham de facto alguns traços semelhantes.

A Romanização foi muito mais efectiva a Sul e as guerras mais sangrentas e duradouras foram na Lusitânia o que constituiu sem dúvida para um rude golpe para esta etnia. Mesmo culturalmente, parece ter havido uma maior permissividade dos Romanos com os Galaicos que nunca deixaram de ter os seus Deuses e de prestar culto aos mesmos nos Castros onde costumavam habitar. Alias o facto de no Norte de Portugal os maiores mosteiros e monumentos religiosos ficarem em topos de montanha onde haviam Castros demonstram isso mesmo.

As tradições duraram tanto que a cristianização forçada levou à criação de templos nestes locais para que se acabasse com o paganismo reinante. No entanto, mesmo hoje estes locais são locais onde ele está bem presente ora na sua vertente mais pura ora dissimulado em rituais católicos sugestivos.

Note-se que os Romanos tinham por hábito adoptar as divindades dos locais onde viviam. Talvez por receio de provocar estes Deuses ou para não criar mais tensão entre estes povos. O que se sabe é que na Gallaecia existem milhares de vestígios onde se comprova que na era Romana, o panteão Galaico e cultura original existia e permanecia viva. O Melhor exemplo será a Fonte do Ídolo em Braga onde um cidadão Romano presta culto a uma deusa Galaica:

Este é um tipo de situação que não me parece existir com tanta frequência na Lusitânia onde os templos e divindades autóctones parecem surgir muito menos. O que se verifica a Sul são por exemplos templos tipicamente Clássicos como o de Diana ou Conimbriga.

Estas estruturas, apesar de se encontrarem na Gallaecia muito ocasionalmente (por ex. Bracara) não são nunca dominantes. Ainda no Alentejo e Algarve, muitos locais religiosos são Moçárabes apenas cristianizados pela conquista Galaica (o termo reconquista não se aplica aqui pois nunca estas terras tinham feito parte da Galécia).

O Galaico reconhece no entanto que esta afirmação resulta de uma constatação desprovida de provas académicas que pode ser contestada. Baseamos-nos sobretudo na vivência Empírica resultante do facto da vasta maioria dos locais de culto mais importantes do Norte de Portugal estarem em sítios referenciados como tendo valor arqueológico pré-romano. Coisa que não achamos existir a Sul. Caso hajam pessoas capazes de contradizer, agradecemos pois estamos aqui tanto para ensinar como para aprender.

A nível religioso parece então que o Norte da Península, impulsionado pelas ordens papais e conjecturas da época, é que Cristianiza efectivamente o país através da sua expansão a sul.


A própria religião que os Portugueses tanto estimam e marca o seu carácter lhes provem do Norte da Península e nunca da Lusitânia.

Os Reinos Germânicos:

Depois dos Romanos a Galécia distingue-se ainda mais da Lusitânia. Agora, já nem sequer eram governados pela mesma entidade. Na verdade, numa fase inicial, os próprios povos Germânicos que ocuparam este recanto da Europa ocidental eram diferentes dos que regiam a Lusitânia. Suevos a Norte, Visigodos a Sul.

Foi nesta era que o Papa envia São Martinho de Dume a Braga para que este acabasse com o Paganismo reinante. Prova do que a Etnia ainda estava viva e genuína culturalmente na Galécia. Por isso, São Martinho de Dume, o castrador genocida religioso, tentava de todas as formas torcer este povo tão dedicado às suas crenças.

Bem que tenha conseguido de uma certa forma, nunca saiu do seio do povo as verdadeiras tradições e superstições como vimos em Posts anteriores. No entanto foi com ele que se implanta a religião que será a dominante nos nossos dias.

Concluindo:

Depois desta versão simplificada que, admito, poder ser contestada (e assim espero da parte de quem conseguir ler até ao fim este testamento e conseguir fundamentar convenientemente os seus argumentos), observamos que a única região que manteve ao longo dos tempos uma cultura e etnia preservada foi a Galécia.

A Lusitânia é um MITO porque deixou de existir como entidade homogénea por causa de séculos e séculos de intenso domínios exteriores.

Até que ponto podemos chamar Lusitanos a um povo que por ventura já não tinha, a quando da reconquista, referências de si próprio? Onde as suas cidades eram regidas e exploradas por Mouros? Onde os seus templos eram Romanos e depois, em muitas casos foram Árabes?

Como podemos à luz destes argumentos aceitar que nos chamemos Lusitanos?

Os Galaicos é que formaram este país. Fizeram-no com o seu sangue, com o seu esforço e com a sua ambição. Isso apesar de serem projectos pessoais que levaram à separação dos conventus Galaicos . Não se iludam, a expansão a Sul não foi nenhuma manifestação do amor Nacional de D.A.Henriques. Como poderia sê-lo se a vasta maioria do território que conquistou nunca tinha feito parte da Galécia? A reconquista ocorreu até bem a Sul do Douro mas nunca em todo o território.

Note-se O Mito Lusitano apenas surgiu com a necessidade dos autores Portugueses imitarem as grandes epopeias. Para isso precisavam de um herói e, o único que teve tal perfil teria sido Viriato.

Através de Camões e Gil Vicente surge a primeira grande razão deste entranhar do Lusitanismo na cultura Portuguesa:

Assi o gentio diz. Responde o Gama: Este que vês, pastor já foi de gado; Viriato sabemos que se chama, Destro na lança mais que no cajado; Injuriada tem de Roma a fama, Vencedor invencíbil, afamado. Não têm com ele, não, nem ter puderam, O primor que com Pirro já tiveram

Lusíadas, Canto VIII estrofe VI;


Já que falamos de Língua, este símbolo tão Português e que tantos nos orgulha, convêm relembrar que esta não é em absolutamente nada Lusa. O termo Lusofonia é mais uma barbaridade mal empregue pois todos deveriam saber que esta nasceu da Gallaecia.

"
O português nasceu na antiga Galécia (Gallaecia) (Galiza e Norte de Portugal) ao noroeste da península Ibérica e desenvolveu-se, na faixa ocidental da mesma incluindo parte da antiga Lusitânia e da Bética romana."

Desta forma, quando Fernando Pessoa, disse " A minha pátria é a Língua Portuguesa", estava inconscientemente a declarar-se Galego.

Mais tarde, com os propósitos dos regimes mais ou menos opressivos do Estado Novo e de Salazar, tudo o que tivesse potencial para reunir a cegueira do povo era utilizada como arma de lavagem cerebral. Futebol e o benfica, a Musica e o Fado, a Religião e a invenção do milagre de Fátima etc.

Assim, em Viseu, com o simbologia Mocidade Portuguesa aparece a seguinte placa de Bronze junto ao monumento a Viriato (ele que bem o mereceu):



“Aqui mergulham as raízes desta raça viva e forte – Imortal na sua essência”

Constato nisso o seguinte:

Uma organização reconhecidamente propagandista, ferramenta de um estado que sempre tentou fazer de Portugal uma unidade estéril e previsível, a falar sobre um povo imortal que nada teve a ver com a criação do país em que vivem. Ninguém sabe até se existiam ainda etnicamente. Tentaram também atribuir-lhes as virtudes de um herói que o foi ao lado de uma federação de povos e nunca com a exclusividade dos Lusitanos...

Portugal é GALAICO porque os GALAICOS é que fizeram o país. Libertaram as suas terras dos "infiéis", deram-lhe uma língua, uma religião e acima de tudo uma identidade que nunca teve.

E também é Galaico porque até carrega o nosso nome!


Os Nortenhos tem o direito de não se sentirem Lusitanos. Isso não nos faz melhores ou piores Portugueses. Apenas nos faz ser mais verdadeiros. Aos Nortenhos e a todos os portugueses!

Portugal não deveria ter medo de repor a verdade mas existe um temor que a nacionalidade possa ser afectada de alguma maneira sobrenatural se a verdade sobressair.

As gentes tem de se lembrar que Portugal vale por si pois é o fruto dos Galaicos. A união existe e o país é genuino.

Somos o mais antigo da Europa e na minha óptima, a única coisa que põe isso em questão é negar-lhe a sua verdadeira identidade.


Como disse Miguel Esteves Cardoso no mais belo e emblemático texto que já li sobre o Norte:

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

As Nicolinas Vimaranenses

Guimarães, onde se diz ter nascido Portugal, vive este fim de semana mais umas das muitas festividades regionais e, eventualmente a que mais marca a cidade.

Esta celebração é relativamente recente se a compararmos com as festas populares e outras manifestações anuais que o nosso povo perpetua sem saber muito bem porquê. Na verdade as Nicolinas não são mais que a festa dos estudantes da cidade e de toda uma classe de "Nicolinos" que o passam a ser para sempre. Contudo, as origens desta manifestação é imprecisa e alguns defendem que perde no tempo...

Mistura-se simbologia, e orgulho com a ironia e irreverência (muitas vezes desmedida como se pode verificar nos inúmeros excessos de comas alcoólicos e cenas de pancadaria) de uma alegria contagiante. Minerva para o conhecimento, o Pinheiro mais alto como símbolo fálico da juventude e até Cupido para demonstrar que a rapaziada não esquecia as "rapazas" que originalmente não podiam participar nesta coisa de homens.

O dia mais importante e que desperta mais interesse em todos os jovens da região é o dia 29 de Novembro. O dia do PINHEIRO.

"O desfile do Pinheiro, e o seu levantamento num recanto de destaque da cidade, revestiu-se tradicionalmente de uma simbologia especial. Era ao Pinheiro levantado que competia anunciar o início das Festas Nicolinas. Ele aparecia - e aparecerá sempre, enquanto número fundamental das Festas dos Académicos de Guimarães - como uma espécie de prelúdio, de introdução a tudo o mais que os Estudantes se dispõem a realizar durante os oito dias que duram os festejos em honra de São Nicolau. (...)

O Pinheiro é o anunciador dos Festejos Nicolinos. Conduzem-no os Estudantes em cortejo festivo, e erguem-no ao céu para "anunciar" à cidade expectante que, com o fim de Novembro, uma vez mais algo de extraordinário está para acontecer em Guimarães - A Festa dos seus Estudantes.

Não é conhecida a data precisa em que o cortejo do Pinheiro saiu à rua pela primeira vez. As suas raízes, porém, ligam directamente a tradições populares muito antigas e com elas se perdem no tempo. (...)

Por toda a tarde de 29 de Novembro os Estudantes percorriam em bandas as ruas de Guimarães, massacrando as peles dos bombos e das caixas, os músculos dos braços, a carne das mãos ... e os ouvidos dos citadinos.

Desde o princípio deste século era costume os Estudantes do Liceu dirigirem-se à Escola Industrial, obrigando os professores, com a insistência dos toques, a "libertar" os alunos das aulas, de modo que também eles pudessem aproveitar alguma coisa da celebração e da farra desse dia. (...)

A abrir o cortejo do Pinheiro, iam grupos ruidosos de Estudantes, os "zabumbas", que atacavam furiosamente os bombos e as caixas. Vestiam camisolas de lã grosseira e cobriam a cabeça com os tradicionais gorros. Por vezes, vestiam-se de modo sugestivo e até (se as interdições não tinham lugar) colocavam uma máscara na cara. À cabeça do grupo, seguia o "chefe dos bombos", comandando com a "maçaroca" a Banda Nicolina. (...)

Numa tradição mais recuada, abria o cortejo um grupo de Estudantes a cavalo envoltos em lençóis brancos. Outros Estudantes os seguiam, a pé e a cavalo mascarados das formas mais grotescas, como se se tratasse de uma revivificação do Carnaval. E usavam ainda camisas de dormir, saias, chapéus de coco e penicos na cabeça, e até sobrecasaca e fraque.

Seguia-se, no cortejo, um número variável de juntas de bois. Anos havia em que as juntas que acolitavam o Pinheiro eram infindáveis. Chegavam a ser dezenas e dezenas, passando por vezes a centena. Por isso o desfile demorava três, quatro e mais horas. Não porque o percurso fosse mais dilatado do que hoje; mas pela sua extensão em carros, indiscutivelmente superior, e porque durante a sua passagem se iam desenvolvendo manifestações festivas.

À frente das juntas de bois, seguiam filhos de lavradores, rapazes e raparigas, exibindo trajes regionais. Os próprios bois eram enfeitados com elementos de tons alegres. Chegava depois a vez dos carros alegóricos, com motivos alusivos a situações do ensino ou a qualquer acontecimento epocal mais marcante. Não tinham número definido, ficando ao critério e imaginação dos Estudantes tanto a sua figuração como o seu aparecimento.

Um carro de certa maneira obrigatório era o que invariavelmente os Estudantes dedicavam a Minerva, a deusa da mitologia grega para a sabedoria e o trabalho intelectual. (...) A intenção dos Estudantes era simbolicamente a de que a deusa lhes assegurasse êxito nos estudos, e lhes concedesse, anualmente, o inestimável milagre ( já nesse tempo se tratava de um milagrão) de esse êxito ser conseguido com o mínimo possível de empenhamento e o dispêndio apenas do estritamente necessário do seu tempo com o folhear de papéis e a leitura de letra de forma. (...)

Outro carro que também aparecia muitas vezes (o que não deixa também de ser significativo - e ao mesmo tempo natural) era dedicado a Cupido, o deus do Amor, representado nuzinho, rechonchudinho, levando maçãs na ponta das setas e com elas ateando o fogo das paixões no campo para elas sempre fértil que é o coração da juventude ...

Só então aparecia o elemento nuclear da festa - o Pinheiro. Originariamente, ele era enfeitado, pintado mesmo, com as cores escolásticas - o verde e o branco. A bandeira escolástica, onde se representava igualmente a figura de Minerva, era verde e a fita com a medalha de São Nicolau, que os Estudantes colocavam ao pescoço nas cerimónias religiosas, era branca.

Os adornos do Pinheiro consistiam essencialmente em bandeiras, lâmpadas alimentadas a óleo, balões, festões, arbustos e verdura. A intenção era fazer com que ele não desmerecesse a sua qualidade de centro da festa. A ladeá-lo, seguiam os Estudantes, muitos deles mascarados, ajaezados com adereços carnavalescos, iluminando o caminho com lâmpadas, velas a archotes. Tudo isto sem dúvida que dava ao cortejo (facilmente se adivinha que talvez até mais que hoje) o tom feérico de uma maravilha oriental.

O Pinheiro era oferecido por uma família rica de Guimarães, sendo escolhido pelo seu porte, o seu aprumo e imponência. Era por aí que se avaliava a abastança da casa que o cedia. (...)

Depois da cerimónia, a noite sempre foi de tudo menos de dormir. Ainda hoje, numa tradição que se mantém, os Estudantes, dando largas à sua natural jovialidade, dispersam-se pela cidade em grupos e toda a noite tocam os tambores.

»»Fonte««
__________________________

As festas Nicolinas são uma marca de Guimarães como cidade e a exultação máxima da expressão de pertença ao seu meio académico.

E esta expressão tem um som característico. Como citado no texto acima, estas festividades misturam o presente com o passado. Quem sabe de onde vem este ritmo contagiante que se repete todos os anos...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os Castros!

Aqui há uns meses, tive que ir para os lados da Galiza a fim de comprar uma gaita-de-foles. Lá consegui levar como companhia, rapaziada dos seus 18 a 20 anos extasiados de curiosidade.

Tendo como destino a cidade de A Guarda (do outro lado de caminha), aproveitei logicamente para visitar o maravilhoso Castro de Santa Tecla.

Pois bem, abriram-se novos horizontes para aquela cambada nova. Um castro era uma autêntica novidade para aqueles espíritos. Os monumentos mais antigo que eles conseguiam referir eram: as pontes romanas!

Tendo em conta cerca de 12 anos de ensino público, foi uma autêntica mágoa para mim e para eles! Desconfio que o ensino nestas matérias tem regredido, pois na minha altura de telescola (5º e 6º ano), já se falava de castros inclusive visitas de escola. Mas talvez fosse apenas sorte minha.

Os castrejos são, provavelmente, os nossos antepassados mais directos. Mesmo não o sendo geneticamente para alguns de nós galaicos será, incontestavelmente, a nível etnográfico como temos vindo a referir aqui no ogalaico.


Mas afinal o que é isso de castro, castrejos e cultura castreja?

A partir do século VI a.c., numa ampla zona do noroeste da Peninsula Ibérica, entre os rios Douro e Návia e a Oeste do Maciço Galaico, desenvolveu-se um tipo muito peculiar de assentamentos, chamados Castros, diferentes de outras áreas da península.

Os castros eram povoados fortificados situados num lugar estratégico para facilitar a sua defesa. Tinham também que dispôr de acesso fácil a recursos alimentícios e água, pelo que se situavam habitualmente entre a zona de montes e prados e a de bosque e cultivos.

Castros já existiam durante o Neolítico e a Idade do Bronze, muito antes das invasões Céticas. Julga-se que a Cultura Ibérica desses povoados se misturou com os elementos céticos sem quebras de continuidade.

O Céltico, provavelmente o dialecto Goidélico, tornou-se a lingua franca de toda a Cultura Atlântica. Muitos dos megalitos da Idade do Bronze como menires e dólmenes estão situados em regiões em que também há castros, e são anteriores aos Celtas quer em Portugal e na Galiza, quer na costa atlântica da França, Grã-Bretanha e Irlanda. Estes monumentos continuaram a ser utilizados pelos druídas celtas.

Os povos castrejos, um povo marcadamente tribal, (já conhecidos pelos Gregos com o nome de "Kallaikoi", ou seja, Galaicos) foram definitivamente derrotados pelos Romanos no ano 19a.C., invadidos desde a Lusitânia pelas tropas de Décimo Júnio Brutos - o Galaico.

Nos quase cinco séculos de dominação romana, o noroeste peninsular passou por diferentes fórmulas organizativas: províncias, dioceses, conventus, municípios, etc.

Para controlar a província romana da Gallæcia os romanos tiveram em conta a homogeneidade e particularidade cultural anterior à conquista, servindo-se da organização preexistente, uma organização caracterizada pela existência de diferentes povos (populi), cada um deles integrado à sua vez por um certo número de núcleos de povoação (compostos por castros ou “castella”).

Os Romanos destruíram muitos castros, devido à resistência feroz dos povos castrejos ao seu domínio, mas alguns foram aproveitados e expandidos como cidades romanas. Segundo Jorge de Alarcão "Aos castros, deram os Romanos o nome de castella, que aparece nas inscrições do século I d.C. sob a forma abreviada de um C invertido"

A equipa de ogalaico apela a todos os galaicos para quando tiverem indecisos quanto ao que fazer num feriado, fim-de-semana ou período de férias, pensem numa visita aos nossos fantásticos castros da galécia.
São cerca de 7 mil em toda a região do noroeste atlântico, muitos dos quais em processo de avaliação para candidatura à UINESCO.

Alimentem os espíritos com os testemunhos desta pujante “civilização” castreja que marcou toda a faixa atlântica norte! Um legado que é nosso!
___________________________
Fontes

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Símbolos mágicos no Popular Galaico!

Em seguida ao oportuno comentário de Maria no último Post segue um pequeno exemplo de como os símbolos mágicos presentes no religioso pré-romano permaneceram presentes até bem pouco tempo.

De facto, até poucas décadas, o Norte de Portugal assemelhava-se mais a uma terra na idade média do que a outra coisa.

Citando Maria que, por sua vez citou Joaquim de Vaconcellos:

"Os desenhadores dos seculos XI a XII recorreram provavelmente aos pergaminhos ecclesiasticos, illuminados, da epocha, onde se inspiraram; mas não foram simples copistas; recorreram tambem a symbolos ancestraes de mui remotas epochas. Já escrevi e demonstrei em outro logar em 1908 que me parece evidente o effeito de uma decoração prehistorica e protohistorica, dependente de influencias exclusivamente locais e nitidamente nacionaes, tão nacionaes que ainda hoje se revelam na admiravel e variadissima decoração dos nossos jugos nas provincias do Norte e nos artefactos ceramicos das mesmas provincias. Esta aproximação é o resultado de reflectido e demorado estudo, que não posso sequer resumir aqui, mas que se baseia no confronto de numerosas illustrações minhas, ineditas e em exemplares das artes domesticas e das alfaias rusticas, colleccionados desde 1877 e comparados n'um estudo histórico, impresso em 1879. Os jugos do Minho, Entre Douro e Minho, e de parte da Beira Alta, são traduções em madeira mais ou menos fieis de decorações romanicas em pedra."

Exemplificando:

Pentagrama (S. Francisco - Porto): Símbolo associado a todas as crenças esotéricas e a ainda mais disparates propagandistas que podemos imaginar.


Levantamentos nos jugos de Bois:

Num espigueiro:


Suástica Pré-Romana:



Representação nos jugos de Bois:

No Portal de um Espigueiro:


Hexapétala Pré Romana:


Presença em elementos comuns da vida agrícola neste caso, contemporâneos por estarem a ser representados por um rancho folclórico (note-se igualmente o pentagrama):


E num espigueiro Galaico -Asturiense:


No fundo, estes símbolos com origens ancestrais ganharam uma conotação intemporal de protecção contra azares, demónios, maus olhados ou poderes obscuros. Por isso eram colocados em portais de igrejas e em tudo o que se relacionasse com a vida agrícola.

Num tempo onde as pessoas dependiam exclusivamente de si próprias e onde o misticismo se misturava com uma religiosidade profunda, estas representações faziam parte das crenças protectoras milenares do povo.

Frequentemente, esta reverência pagã nos rituais agrícolas chegava a ser acompanhada por autênticas frases mágicas:


Os símbolos, rituais e frases mágicas faziam parte da vida do dia a dia dos nossos antepassados. Hábitos adquiridos fruto de uma evolução natural. Para todos os momentos da vida haviam processos pagãos capazes de atrair sorte e protecção.

Basta consultar este documento para o constatar:

http://www.instituto-camoes.pt/cvc/bdc/etnologia/opusculos/vol05/opusculos05_397_434.pdf