sexta-feira, 4 de março de 2011

Morte do Tua e a Paísagem de Miguel Torga

OGalaico é um defensor incansável da paisagem. Foi um dos nossos ídolos e inspiradores, cujo nome dá por Miguel Torga, que disse um dia:

"Devo à Paisagem as Poucas Alegrias que Tive no Mundo".

Na sequência de vários Posts acerca da aniquilação da paisagem Portuguesa fomentada pelo neo-colonialismo corrupto de uma cidade estado falida, e enquanto contemplo na imprensa as notícias de como o Vale do Tua vai ser apagado do mapa para satisfazer os políticos do PS que detém as empresas ás quais foram adjudicadas as obras, deixou aqui um link com uma pequena discrição de como, ainda hoje, existem Vilarinhos dos tempos modernos.

Para os que não tem estômago ou vontade de ler as infâmias que existem das entranhas da capital, fica um pequeno enxerto do texto acima referenciado e que chega para nos por mal dispostos durante uma semana. Ao mesmo tempo, explica muito do que vai mal nesse pais:

"Já agora convém lembrar que a empreitada da barragem foi adjudicada pela EDP de António Mexia, ao consórcio Mota-Engil/Somague/FMS, cuja empresa-mestra é presidida pelo socialista Jorge Coelho, que também está a fazer o túnel do Marão e a A4."

http://br.olhares.com/vale_do_tua_foto2798651.html

Lembremos-nos
o Vale do Tua é uma maravilha natural de Portugal. Lembremos-nos que Portugal, ou pelo menos os acéfalos dos seus "representantes", continuam a desbaratar publicamente noções como "sustentabilidade", "preservação", "ecologia" e afins.

Certo é que, daqui a pouco tempo, veremos no que outrora fora uma pérola para as nossas almas, um paredão de betão com 108 metros de altura e uma área inundada de 37km. Veremos, caros leitores, o assassinato do Tua consentido até pelo poder local que, como poderão constatar no artigo, foi bem subornado pela escória residente perto das margens do Tejo.

http://ferradodecabroes.blogspot.com/2009/03/de-mirandela-foz-do-tua.html

Alguns de vós poderão argumentar com as necessidades energéticas do futuro. Pois bem, a esses eu pergunto porque é que não vão esses políticos investir em parques solares no Alentejo? Porque é que não criam parques de ondas que, esses, teriam impactos quase inexistentes? Porque é que apenas se focam num modelo que trás consigo enormes consequências e cujo o país está já sobrelotado?

Mapa das Barragens de Portugal

A única resposta que me ocorre é que as empresas dos nossos políticos são empresas do betão. São máquinas de fazer dinheiro à custa das ossadas dos nossos antepassados. Além disso, revela a insensibilidade e hipocrisia dos governantes que nos auto impingimos.

Assim, enquanto continua a devastação do património Natural da globalidade do país, deleito-me com os relatos de Miguel Torga que tão bem entendo. Levado a potenciar a minha imaginação com uma boa malga de vinho, optei por partilhar com vocês o seguinte trecho de um dos seus Diários:

"Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração.


A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do chão onde firmo os pés, foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor.


Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Angelo a demonstrá-lo.


Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerez. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespeare... Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe! "


Miguel Torga, in "Diário (1942)"

Tivessem os nossos políticos uma fracção da sensibilidade de Miguel Torga, e o futuro de Portugal estaria, de facto assente na sustentabilidade. Assim, por muito que nos queiram fazer crer, o sistema que está em vigor é o capitalismo individual que apenas beneficia os fatos e gravatas que tem o poder de assinar papéis e decidir a execução final de uma nação.

5 comentários:

Fernando MC Barros disse...

nem de proposito...depois do meu Post que terminava com um ..."até quando?" eis um sitio que ja se sabe "ate quando"...foi ate agora, ate o betao do jorge coelho encher com o "cimento que falta" (como diz socrates, esse expert em engenharia civil e aldrabice) um dos mais belos rios de Portugal.

As fotos que mostrei de Lindoso foram coisas que restaram das obras da Barragem de Lindoso. Os campos de cultivo da Medieval aldeia da Varzea nao restaram. A via Medieval do Vale do Lima e troços de percursos ainda mais ancestrais também não. Algumas aldeias galegas ficaram debaixo de água, tal como outrora tinha ficado essa terra mítica de Vilarinho da Furna cuja barragem com o mesmo nome afundou...

Agora é a Linha e o Vale do rio Tua...

Só é pena que não façam uma barragem no Tejo que inunde Lisboa, a começar pelos locais do poder partidocrático que nos governa...

O Galaico disse...

Pois é, talvez o FMI fosse a barragem que valesse o travão ao desvario que vai nos dirigentes desse barco semi-afundado.

Por mim, subalugava a gestão do país e entregava-a a pessoas menos corruptas pelo capitalismo e ignorância.

Armando Pinto disse...

Curiosamente, ao ler isto, pensei: como vou passar amanhã nesta zona, em passeio, vou lembrar-me do que li neste blogue, ao vislumbrar essas paisagens, enquanto medito no que está a acontecer ao país profundo que aquelas exóticas paragens personificam.

Conto estar bem disposto, desde que o azul e branco, hoje, me faça ver amanhã o céu mais azul...

Elaneobrigo disse...

a maquina politica portuguesa é pior que a máfica dita "italiana"! acho piada ao politicos provincianos... por pequenos problemas que surgem, como falta de obras numa escola ou porque a piscina municipal está entupida, reclamaram e apontam o governo como culpado de tudo....
nestas questões destruidoras e abosivas assobiam para o lado que lhes convém!
Nos estados unidos andam a destruir, precisamente, as barragens hdroelectricas e a repor os cursos ancestrais dos rios. Investindo em energias alternativas.

O Galaico disse...

Olá amigo Armando Pinto,

Aproveite o passeio pois serão vistas que nunca mais iremos poder presenciar. Antes de se iniciar a construção irei também eu registar pessoalmente os últimos momentos de uma bela região até agora pura e esquecida.

Infelizmente, os chulos dos nossos mandantes, só se lembram das zonas mais isoladas quando essas tem algo para lhes oferecer. Nesse caso, o nossos ministros terão onde investir em acções ajudando os seus compadres nas suas empresas demolidoras do futuro de Portugal.
_________

Elaneobrigo, focaste-te num ponto muitíssimo oportuno.

De facto, em Portugal consideram-se as barragens como fonte de energia renovável quando, na realidade, são atentados ambientais da pior espécie.

Hoje em dia, nos países desenvolvidos, essas são vistas como tecnologias retrogradas e em vias de substituição.

Porém, em Portugal, nada disso se trata. A única preocupação é a de criar trabalho, postos e lucros para quem está no governo.

Que ninguém se iluda. Nesse país a ambição capitalista PESSOAL é a UNICA coisa que move os políticos. Todas as conversas e políticas sociais qu saem das duas bocas são meras campanhas publicitárias em que apenas os ingénuos caem.