sábado, 30 de agosto de 2008

Não passaram muitos anos!


Não passaram muitos anos em que nas aldeias se encontrava as vacas barrosãs a comerem nas bermas dos caminhos, enquanto o seu dono de sachola às costas dava uma palavrinha com o vizinho que munido de tesouras “cantadeiras” fazia a poda das suas vinhas!

Não passaram muitos anos em que as gentes da aldeia se organizavam para a “batida ao lobo” junto dos fojos do lobo, e quando uma vaca se “escutava” era morta pela dono e a população vinha comprar carne a fim de ajudar o lavrador no prejuízo!

Não passaram muitos anos em que depois de uma matança do porco o lavrador movido pelo espírito comunitário, distribuía o “sarrabulho” composto por “farinhatos”, “bofes”, febras, rojões e orelha pelos vizinhos; e quando se fabricava o bagaço, os homens das aldeias faziam serões junto dos alambiques bebendo e comendo num banquete ritmado pelo estalar da fogueira e o murmúrio das vozes masculinas!

Não passaram muitos anos que as crianças faziam os seus próprios brinquedos, em ferro ou madeira; e uma simples ida às malhadas, lavradas e desfolhadas enchiam os campos e eiras de júbilo e brincadeira!

Não passaram muitos anos em que as mulheres serpenteavam pelos vales das aldeias com um molho de linho à cabeça ou um cesto de roupa acabada de lavar no rio; e aos domingos as raparigas solteiras colhiam flores nas hortas e campos para aparelhar as capelas e igrejas ensaiando cânticos primaveris!

Não passaram muitos anos em que as roupas das senhoras eram feitas à medida pelo alfaiate ou pela vizinha costureira; e o uso de calças por parte das mulheres ainda não estava enraizado nos cânones da beleza feminina!

Não passaram muitos anos em que se via nas cidades, senhores rurais a cumprimentar as gentes nas ruas com um sorridente bom dia; e senhoras vestidas de negro vindas das feiras atulhavam as “camionetas” de galinhas, ovos e hortaliças tão viçosas como o brilho dos seus brincos de libras de ouro!

4 comentários:

O Galaico disse...

Seremos capazes de dizer que hoje, com as mudanças que o mundo teve, a nossa vida é claramente melhor?

Elaneobrigo disse...

hoje a vida tornou-se mais exigente!

precisamos de mais e mais coisas para nos sentirmos satisfeitos!

mas em contrapartida temos mais liberdades de acção e de escolhas!

antigamente as pessoas levavam uma vida mais humilde e de sacrifício, mas em contrapartida estavam mais ligados à terras, à sua comunidade e às suas raízes!

á primeira vista parece facil hoje em dia, voltar a viver na aldeia - pelo menos durante a idade da reforma- porque temos mais meios de transporte e de comunicação!

mas uma pessoa, principalmente idosa, a viver numa aldeia está condenada ao isolamente e muitas das vezes à solidão!

não há quem trabalhe os campos porque a população é envelhecida, faltam cuidados de sáude etc etc.

solução são os lares de idosos nas vilas e cidades!

Maria disse...

Hum... eu acho que a grande diferença passa pelo isolamento auto-imposto e pela incapacidade de o homem moderno e citadino viver o momento presente.

Cada vez é mais difícil vivermos o momento presente, sem pensarmos em mais nada. Deixamos que se instale a rotina de 4 horas de trabalho, almoço, mais 4 horas de trabalho, jantar, televisão, dormir... E cada vez mais esquecemos o "agora", até que pura e simplesmente deixamos também de saber o que é andar à chuva quando chove e ao sol quando o céu é azul...

No teu post, mostras um mundo bucólico e idilico, contudo, na minha opinião, o que esse mundo tem de fantástico é precisamente a simples integração do homem na natureza, a participação nos ritmos da vida...

Na cidade e no mundo moderno tendemos cada vez mais a isolar-nos. A todos os níveis. Para começar (e eu acho isso deveras importante), usamos sempre calçado isolante, que não nos permite sentir as energias da terra, ou libertarmo-nos para a terra do nosso excesso energético... (mas quem precisa agora disso quando há ansiolíticos e antidepressivos?)

Claro que no meio da natureza é bem mais fácil sentir e participar nos ritmos cósmicos, na roda do ano - que é o que nos faz sentir intensamente vivos - mas também podemos fazer isso na cidade. Com maior esforço, é certo. Mas pode ser feito. Desde que que nos lembremos que não é o mundo que é diferente, diferente é apenas a nossa percepção mental do mundo...

O Galaico disse...

Eu acho que o homem se esqueceu do quanto ama a Natureza e o estilo de vida representado brilhantemente pelo Zixix.

Tal como um homem pode se esquecer de que ama a a mulher até ao dia em que acorda sem ela...

As populações fartaram-se da vida nas aldeias. Hoje querem sentir a criação do homem e querem beneficiar destes bens que julgamos serem os melhores para nós.

No mundo ocidental, daqui a uma ou duas centenas de anos, quando o nível cultural médio das pessoas for elevado que chegue, creio que as pessoas vão voltar a viver como antigamente. Pelo menos uma maior parte...

Encontraremos um equilíbrio saudável entre a criação humana e a natureza.

Estou convencido que sim.