terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O troco!

A vida em comunidade era por estas terras tão intensa quanto a defesa da propriedade minifundiária. Como já falamos aqui uns tempos atrás, esta marca social define ainda hoje muitas das características deste nosso povo.

O Troco dava-se e pagava-se sob pena de total exclusão dos núcleos de fraternidade que possibilitavam a vida rural daquele tempo.

Não estamos contudo aqui a falar de um troco monetário. O troco eram os pagamentos de favores que tornavam possíveis a gestão das quintas e propriedades agrícolas. Contou um familiar o seguinte:

" Antigamente, antes de eu imigrar e porque era o mais velho dos irmãos ainda em casa, mandavam-me a troco! Por vezes, pessoas que tivessem vindo cá vindimar, ao mato ou a qualquer outro trabalho e que fossem amigos pediam-me até que fosse a troco com eles para outra casa!"

Como assim?

"Ora, se um familiar ou amigo tivesse a dever troco de 3 ou 4 homens a fulano de tal lugar, e só tivesse um X disponível, então pedia aos amigos que fossem com ele pagar o troco naquela quinta! Depois ele ficava comprometido a vir à nossa casa ou então ajudar-nos a pagar o troco a outro sítio!"

"Isso é que fazia viver o campo. Sozinhos ninguém podia tratar do ar (vinhas enforcadas em árvores altas tradicionais do Minho), cultivar as terras, as fruteiras, o gado, realizar trabalhos na casa e nas colheitas! Cada família ou senhor pedia ajuda aos que estivessem disponíveis e, depois, ajudava quem participou nas lides deles. Se fosse rico, mandava os seus caseiros ajustar as contas. Se um caseiro ainda tivesse em casa filhos em idade trabalhadora podia mandá-los a eles. O que importava é pagar o favor!"

"Era assim que tudo se passava e como podes ver, naquela altura, trabalho e tempo era mesmo dinheiro! Muitas vezes havia quem pagasse e não tivesse homens pois estes estavam a dar troco a outras pessoas. Se não fossem dar o troco pouco lhes importava as coroas que recebessem pois, quando tivessem que tratar das suas terras, não tinham ninguém a quem pedir nem tão pouco com que pagar a jornaleiros. Os Jornaleiros, estes não tinham terras nem eram caseiros de ninguém e viviam do trabalho deles. Estes sim, pagavam-se em moeda!"

"As vezes lembro-me de ser mandado pelos teus avós a troco a casa de senhores de quem eu não gostava! Mas tinha de ser! Tinha de lá ir! De qualquer forma, as pessoas encontravam-se todas nestes trabalhos. Só haviam conhecidos, amigos e vizinhos. Acabava tudo sempre em festa a cantar e dançar. Que bons tempos. E também era dos dias em que se comia melhor... Sim porque para atrair mais trabalhadores a troco tinha de haver bom vinho, boa comida e boa festa no fim. Se fossem agarrados ao dinheiro então poucos eram os que estavam dispostos a vergarem-se de sol a sol só para ter mais um homem nos seus trabalhos..."

"Ainda hoje o Tio paga um pique-nique antes do verão a todos os vindimadores habituais. Vai sempre o tocador de concertina e não falta nada. Tu bem sabes que hoje em dia , as gentes só vindimam por dedicação. Poucos trabalham as terras e já nem sequer se levantam ao Sábado de Manhã para tratar do seu quintal. Quanto mais para passar o dia de escadote às costas depois e uma semana de trabalho e sabe Deus quantos problemas por resolver em casa!"

"Mas olha, na nossa vindima nunca falha ninguém. Já todos sabem que dia é e não se comprometem com mais ninguém. Alguns só vindimam uma vez por ano e é aqui na nossa! Por isso é que ao fim da vindima come-se tão bem que no Natal. São entradas, Aperitivos, Bacalhau, Pica no Chão, Vitela e Sobremesas! Como o troco já não se usa, paga-se a dedicação das pessoas como o faziam antigamente.. Adoçando-lhes a boca!"

9 comentários:

Lola disse...

Galaico,

É um prazer visitar-te.

As tradições que nos fazes relembrar e que estão de algum modo escondidas na nossa memória.

Lindíssimo o texto e as fotografias.

Beijos grandes

O Galaico disse...

E sempre um prazer ler os teus comentários.

Obrigado, Lola.

Eduardo Cerqueira disse...

Muitos parabéns pela publicação deste blogue. Abraço a todos os seus autores.

O Galaico disse...

Nós é que agradecemos a quem nos visita caro Eduardo Cerqueira.
Viste-nos sempre que queira!

Elaneobrigo disse...

entreajuda comunitária no seu melhor

hoje isso ainda vai acontecendo...

mas actualmente na minha terra é mais entre familiares e o máximo dos maximos abrange os vizinhos do lado!

o que está a acontecer é alguns homens que "justarem" a poda, cortar a lenha, ir ao mato, carregar o milho etc mas a troco de dinheiro!

Para quem não pode tratar dos terrenos esta é um boa solução, mas feitas as contas as terras acabam por dar prejuizo!

Clara disse...

Este registo está ricamente elaborado. Muitos parabéns ao autor!

Beijinho

O Galaico disse...

Obrigadinho Clara. Vai passando!

Ana disse...

Todo o teu espaço é maravilhoso!
Venho entregar-te com todo o carinho o Prémio: Beautiful Blogger
Passa pelo meu blog , e leva o prémio.
Um beijinho

Anónimo disse...

É importante manter as tradições, seja a norte a centyro a sul e ilhas sem duvida, saudações do sul de Portugal - sempre identitário, sempre português, sempre europeu.