sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O Vira Galego!

Dizem que a musica é a melhor forma de expressão de uma cultura.

E é verdade!

A musica não mente. E o que é suposto ser e revela quem é a alma.

A música não se esconde nem finge. A música existe por si só e, o que ela conta pode ser tomado como verdade incontestável.

O que se houve cá e lá tem raízes comuns. Prova de pertença acima de qualquer historiador ou interpretação. A música e em especial o Folclore torna-se assim a mais valiosa peça de arqueologia.

Será este o Vira da minha Vida?

6 comentários:

Maria disse...

Eu só gosto realmente de Jazz.

Tento valorizar a nossa cultura e as nossas raízes, mas afasto-me um bocadinho da música.

E, na verdade, quando estou sozinha em casa, ouço sempre e só Jazz. Não sei porquê...

O Galaico disse...

Pois bem eu, de um tempo para cá, só consigo ouvir folclore.

Quando oiço folclore sinto a minha terra viva e o meu sangue ferve.

Pela minha cabeça passam tempos que já la vão, penso na vida dos meus avós, bisavós e toda a herança que estas músicas trazem consigo.

Olho o folclore não apenas de uma perspectiva musical mas muito mais que isso.

O folclore está cheio de sinais do tempo. As quadras que se cantam tem origens por vezes na baixa idade média.

Em alguns casos encontrei quadras populares que aparecem já no séc XIII dedicadas a santas que devem a sua existência a cultos pagãos.

E o alcance do folclore vão bem para lá do que a pessoa comum pode pensar. A Cana Verde por exemplo é uma moda fálica cheia de intenções sobre a fertilidade!

Tanto te fale o colosso de pedralva como uma cana verde. O Minho é a região de Portugal que mais emana esta cultura Milenar.

"Ó minha Caninha verde
Cana Verde de encanar
Para encanar as Moças
Verde Cana não Quebrar"

E quanto à nossa cidade de Braga?

O folclore do São João? Não há nada de mais pagão que isso. Não te vou explicar o significado intrínseco à época pois tu dar-me-ias lições sobre isso.

Mas repara a letra da moda de São João que a minha avó cantava quando andava no campo e que ainda hoje os ranchos de Braga cantam:

"S. João para ver as moças,
Fez uma fonte de prata,
As moças não vão à fonte,
S. João todo se mata."

"São João era bom Santo
Se não fosse tão velhaco.
Foi com as moças à fonte
Levou três e trouxe quatro."

"São João adormeceu
Nas escadinhas do côro,
Deram as freiras com ele
Depenicaram-no todo."

Estes são apenas exemplos da óbvia simbologia presente em muito do nosso folclore. Estes assuntos não são ocasionais mas sim recorrentes e uma marca distintiva muito clara.

Mais que isso. As danças circulares do nosso folclore já o eram há milhares de anos. Representavam o ciclo da vida pois claro.

Os próprios cantares ao desafio tão típicos de todo o Norte de Portugal são cantares que nos vêm
da época média e dos trovadores.

O mais interessante é que os cantares ao desafio chamam-se Regueifas na Galiza e, as regueifas aqui são as tradicionais "Roscas". Ou seja, mais reflexos circulares.

O folcore está cheio desta simbologia religiosa/Profana/Pagã.

Ouvindo Folclore pode-se aprender enormemente sobre a terra. Por isso, é que eu amo tanto o folcore e estou empenhado em aprender concertina.

Tomarei a peito a missão de aprender e proteger alguma desta herança de um modo diferente das pessoas comuns. Não para o exibir nem maquinalmente.

Aprenderei o mais consciente possível das suas origens e do que ele representa. Depois, se puder me divertir com isso de certeza que ninguém leva a mal! :D

A verdadeira beleza do folclore está saber interpretá-lo.

Podes hoje olhar para um quadro abstracto e insultares quem pagou fortunas por uma porcaria daquelas e, no fim de um curso sobre esta arte, conseguir discernir para além do óbvio a importância, o génio e o valor!

Maria disse...

Obrigada. :)

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Fernando Pessoa.

zixsix disse...

ao som deste vira dançei eu muitas vezes na minha adolescencia.

o grupo Zé Zé Fernandes de Ponte da Barca ia todos os anos lá à minha terra tocar uma modinhas nas festas.

e esta moda recordo-a com grande satisfação.

aquele toque de gaita de foles está brilhante.

zixsix disse...

o gajo do cavaquinho domina largo... muito bom!

O Galaico disse...

Se o dizes é porque é!! Mas realmente a Gaita encaixa ali como manda o senhor!